Vila Verde

124 idosos isolados sinalizados em Vila Verde

Maria de Fátima tem pouco mais de 70 anos. Vive sozinha numa casa modesta, mas muito bem tratada. Continua a fazer ‘biscates’ na horta de onde retira legumes, batatas, tem um pequeno capoeiro com galinhas e coelhos. Todas as semanas recebe a visita de uma equipa da Cruz Vermelha: “são uns anjos”, diz, ainda antes de qualquer pergunta. “Fazem-me as vontadinhas todas, mas o mais importante é que se preocupam comigo, ouvem as minhas lamúrias, veem se estou bem, se preciso alguma coisa”.

Integrada no programa Idade Maior, Maria de Fátima foi, também, sinalizada para receber tele-assistência: “a maior preocupação dela era não ter ninguém para contactar caso surgisse alguma coisa”, dizem as técnicas. “agora estou mais tranquila”, diz a idosa, que entre risos revela: “já testei só para ver se funcionava e funciona mesmo”.

Para os filhos emigrados, estas visitas são uma tranquilidade. “Sabemos que, todas as semanas, ela tem sempre alguém a visitá-la e ver se está bem. Nós telefonamos, mas não é a mesma coisa”, diz a filha Rosa, a passar a quadra na terra de origem. Os 12 idosos abrangidos pela tele-assistência estão nas freguesias de Gomide, Coucieiro, Portel das Cabras, carreiras, Dossãos, Nevogilde, Cabanelas e Lage.

Reconhece que o primeiro contacto das técnicas da Cruz Vermelha lhe causou “alguma estranheza: liguei para a câmara que me explicaram tudo e eu disse à minha mãe para dar o consentimento”. Nem mãe nem filha estão arrependidas: “é uma segurança”. Aliás, o próprio programa está tudo monitorizado: “os registos de visitas, de anotações, de tudo estão disponíveis, caso sejam necessários para qualquer situação, incluindo judiciais”, refere Alexandrina Cerqueira.

O Programa Idade Maior, que tem como objetivo estratégico promover o bem-estar e qualidade de vida das pessoas idosas do concelho, deu um passo significativo na sua missão ao implementar o serviço de Tele-assistência, em parceria com a Cruz Vermelha Portuguesa, para aquelas pessoas que se encontram sozinhas e isoladas. Este novo recurso visa enfrentar a solidão e proporcionar um suporte adicional a estas pessoas.

Segundo Alexandrina Cerqueira, técnica superior de ação social da câmara de Vila Verde, “o programa é de um conjunto de parceiros que se envolveram para a criação do ‘Idade Maior’ que vai muito mais além do que a criação da tele-assistência”. Existe desde 2011, aquando dos primeiros censos seniores.

“O que nós Vila Verde vamos fazer com estes dados? Não vamos fazer nada? O nosso primeiro parceiro foi a GNR e tentamos perceber que necessidades estas pessoas tinham, o que precisavam e de que forma, nós as podíamos ajudar”. A ideia passava sempre pelas pessoas continuarem a viver na sua casa, sem terem de ir para uma instituição, “mas, ao mesmo tempo terem uma rede de suporte na qual elas podem recorrer”.

O programa tem uma plataforma com uma base de dados onde estão sinalizadas todas as pessoas do concelho de Vila Verde, das quais há conhecimento, que vivem sozinhas e isoladas: “é integrada a informação de cada pessoa, para que as equipas técnicas no terreno, da Cruz Vermelha, GNR, Saúde e Câmara saibam ‘ao metro’ onde estas pessoas estão”.

Alexandrina Cerqueira acrescenta que a plataforma permite perceber a situação em que estão, a regularidade como que têm de ser visitadas e as suas necessidades. Para estarem integradas nesta plataforma, as pessoas têm que dar o seu consentimento”. O grau de segurança é bastante elevado o que permite a segurança das pessoas e seu anonimato: “é um público vulnerável e são vítimas de burlas e extorsão”.

Na altura da Covid, o programa foi muito importante porque todas as pessoas foram contactadas telefonicamente e era levado aquilo de que necessitavam para não terem que sair de casa. “Nós temos muitas pessoas que estão sozinhas em que têm os filhos fora. O que acontece, muitas vezes, há uma articulação com os filhos que dizem muitas vezes aos pais para assinarem o tal consentimento”.

Tele-assistência
A introdução do Serviço de Tele-assistência representa mais um avanço significativo para o Programa Idade Maior, tendo em conta que já este ano foi criada uma equipa de tele-assistência constituída por pessoas voluntárias, em parceria com a Estrutura Local de Voluntariado de Vila Verde. Estas pessoas voluntárias realizam contactos telefónicos, apoiando, desta forma, a equipa de acompanhamento domiciliário.

“Estas equipas que estão no terreno estão em contacto com as pessoas e identificam aquelas que estão em maior solidão e isolamento e são essas que são sinalizadas para beneficiarem da tele-assistência”, refere Alexandrina Cerqueira. “É um aparelho que pode andar com ele ou tê-lo em local de fácil acesso e o qual a pessoa aciona se sentir ao algum tipo de ameaça ou outra situação. Automaticamente é contactada e é acionada aquilo que for a necessidade da pessoa”.

Nesta fase do Programa, o Serviço de Tele-assistência vem proporcionar uma forma eficaz de monitorizar e apoiar este grupo mais vulnerável. “Este serviço funciona 24 horas por dia” e, numa primeira fase, estão abrangidos 12 idosos, mas “o número pode aumentar havendo essa necessidade. A tele-assistência é oferecida pela Cruz Vermelha de Braga e durante um ano é gratuita.

“Esta iniciativa demonstra, mais uma vez, o compromisso contínuo do programa em melhorar a qualidade de vida da população idosa, promovendo a inclusão social e oferecendo suporte necessário para um envelhecimento saudável e ativo”.

“Isolado não é estar no meio do monte”
Uma das questões que a técnica da Câmara de Vila Verde faz questão de esclarecer é que “estar isolado não é estar no meio do monte. Muitas vezes, estamos sozinhos e isolados num prédio com vizinhos em cima e em baixo”

A equipa de acompanhamento domiciliário procura atender às necessidades específicas das situações de isolamento e risco na terceira idade, sempre em estreita articulação entre os vários parceiros do Programa e as entidades do concelho.

Ao unir forças, estas entidades parceiras compartilham recursos, expertise e experiências, possibilitando a implementação ações abrangentes que visam não apenas mitigar a solidão, mas também promover uma inclusão mais significativa das pessoas idosas na sociedade.

A colaboração entre a equipa da Cruz Vermelha Portuguesa, a Saúde, a GNR e a Câmara Municipal de Vila Verde resulta “em intervenções mais eficazes, desde visitas regulares até a criação de atividades sociais e culturais. Estas parcerias estratégicas facilitam o acesso a serviços específicos, como transporte e a assistência domiciliária, contribuindo para que estas pessoas se sintam mais conectados e apoiados nas suas comunidades”.

Em última análise, a importância do trabalho conjunto reside na capacidade de criar um ambiente que valorize e cuide da população idosa, promovendo uma sociedade mais inclusiva e solidária.

“É crucial que a comunidade esteja atenta às necessidades das pessoas idosas e denuncie situações que possam colocá-los em risco”. Além dos canais normais de denúncia e para facilitar este processo, o Programa Idade Maior tem o site (http://idademaiorvilaverde.pt), onde os residentes podem reportar situações de isolamento, risco ou perigo.

“A participação ativa da comunidade é fundamental para garantir a segurança e o bem-estar de todas as pessoas idosos do concelho”, finaliza a técnica superior.

Os parceiros do Programa Idade Maior são:  a Câmara Municipal de Vila Verde, o Centro Comunitário de Prado, da Delegação de Braga da Cruz Vermelha Portuguesa, os Bombeiros Voluntários de Vila Verde, o Centro de Saúde de Vila Verde – ACES Gerês-Cabreira, a GNR e a Proteção Civil Municipal.

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