Numa carta a publicar amanhã na prestigiada revista Science, uma equipa internacional de cientistas liderada por investigadores do BIOPOLIS-CIBIO, Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto, alerta que a Global Gateway, a principal estratégia de investimento global da União Europeia, avaliada em 300 mil milhões de euros, pode representar uma ameaça para a biodiversidade mundial se não forem implementadas salvaguardas ambientais urgentes e robustas.
Lançada em 2021 para mobilizar investimentos em energia, transportes, saúde e setores digitais em todo o mundo, a iniciativa Global Gateway visa promover o desenvolvimento sustentável. No entanto, os autores da carta sublinham que, sem uma integração clara da proteção da biodiversidade, o projeto poderá ter o efeito contrário, acelerando a
destruição de ecossistemas vitais em alguns dos locais com mais biodiversidade do planeta, como a África Subsariana e o Sudeste Asiático.
“A Global Gateway tem potencial para moldar o desenvolvimento sustentável, mas sem salvaguardas claras e aplicáveis poderá acelerar a perda de biodiversidade”, afirma Clara Grilo, investigadora do BIOPOLIS-CIBIO e autora principal da carta.
Segundo a análise, 71% dos projetos da Global Gateway concentram-se em setores de alto risco, como o clima, energia e transportes, associados à desflorestação, perda e fragmentação de habitats e perturbação ecológica. A carta destaca projetos específicos onde os riscos são evidentes:
A linha ferroviária do Lobito, com 700 km no sul de África, que atravessa habitats cruciais para carnívoros como o serval, leopardo e caracal, espécies particularmente sensíveis a este tipo de infraestruturas.
A linha de transmissão Choir–Sainshand, com 220 km na Mongólia, que se sobrepõe a locais de reprodução e paragem de abetardas, aves globalmente ameaçadas.
Os cientistas sublinham ainda a importância de assegurar que todos os projetos da Global Gateway são objeto de Avaliação de Impacte Ambiental e Social, e de estabelecer um quadro transparente e padronizado de avaliação ambiental.
Para alinhar as ambições da UE com os seus compromissos globais, como travar a perda de biodiversidade até 2030, os cientistas apelam a uma ação imediata, propondo um conjunto de medidas:
Implementar uma avaliação padronizada dos riscos para a biodiversidade em todos os projetos.
Criar plataformas de monitorização transparentes que integrem dados sobre a sensibilidade dos habitats e a vulnerabilidade das espécies.
Garantir a aplicação rigorosa das normas de Avaliação Ambiental Estratégica (AAE) e de Avaliação de Impacte Ambiental (AIA).
Reforçar a colaboração com cientistas, sociedade civil e autoridades locais.
Desenvolver guias de boas práticas e ferramentas para a restauração ecológica.
“Ao colocar a biodiversidade no centro dos seus investimentos, a UE tem a oportunidade de tornar-se numa referência mundial para o desenvolvimento sustentável de infraestruturas”, conclui Nuno Ferrand, coautor da carta e Diretor do BIOPOLIS-CIBIO.
A carta, subscrita por investigadores de Portugal, Austrália e Estados Unidos, reforça a urgência de alinhar as ambições geopolíticas da Europa com os seus compromissos em matéria de biodiversidade.
