O Sindicato de Poesia, com as cumplicidades da Velha-a-Branca e da Arte Total, apresentará, no dia 14 de março, sábado, em plenários sindicais, a poesia de Regina Guimarães. Por demais conhecida no mundo literário português, Regina está profundamente ligada a Braga pela atividade que aqui desenvolveu, nomeadamente no âmbito teatral, com a Companhia de Teatro de Braga, para a qual escreveu, traduziu e trabalhou a dramaturgia de inúmeros espetáculos.
Hoje — desde há muito tempo, aliás — Regina Guimarães é, definitivamente, uma figura incontornável da poesia e da cultura portuguesas. O seu raio de ação artística não se limita ao ato de poetar. É também tradutora — e há tanto de criação nesse gesto —, dramaturga e autora de teatro; escreve guiões para cinema; cria textos para espetáculos de variedades; é poeta em inúmeros projetos musicais, integrando, em alguns deles, a própria formação performativa; é realizadora de cinema; é curadora de inúmeras iniciativas, sobretudo ligadas ao cinema, área em que continua a programar conversas e reflexões em torno dos filmes que mais lhe falam. Foi professora.
“Regina Guimarães é tudo isso e muito mais: capaz de uma generosidade gigante que se oculta por detrás de uma máscara sorumbática, de traços sóbrios, corpo de sobriedade, seriedade e circunspecção. Tudo isto parece esconder (ou esconde mesmo) aquilo que nela reconhecemos de mais óbvio, mas que, talvez, nem sempre seja visível: a imagem incontornável da Liberdade”, refere o Sindicato de Poesia.
Somando tudo o que faz, Regina Guimarães é, provavelmente, um dos maiores exemplos de Liberdade que temos o prazer de testemunhar neste país — neste mundo – onde esse valor essencial é diariamente tolhido por pequenos gestos, pequenos receios, pequenos sentimentos que, lentamente, se transformam na fornalha de grandes medos e, onde tantas vezes, a opinião, tacitamente, se cala e se disfarça de comprazimento sorridente.
Regina Guimarães está nos antípodas de tudo isso. Diz o que tem a dizer, escreve o que tem a escrever, produz o que tem a produzir. Avança destemida, em relação à sua decisão, independentemente do que dela possa resultar. Artística, por certo. Mas na vida também. É, nesse sentido, uma espécie de bússola para onde olhamos quando temos incertezas, quando duvidamos da nossa própria percepção de espaço e liberdade. Olhamo-la na presença e na ausência. Ora lendo o que vai pensando sobre isto e sobre aquilo ou, na ausência, sobre o que pensamos que pensa.
Nesse sentido, regressando ao início, Regina Guimarães é um exemplo claro e maior de Liberdade. Ao pensarmos nela, pensamos na santidade da Liberdade — no quanto deveríamos colocar essa santa Liberdade num pedestal, na fachada da nossa vida com velinha e tudo a alumiar. Não é a única. Que bom para nós. Mas é uma dessas figuras tutelares.
“É por isso que queremos ir à casa da sua poesia, habitá-la o mais possível, vivê-la por dentro, tatuar a pele com as suas palavras e seguir vida adiante, iluminados por essa experiência, por essa informação, no corpo e por dentro dele”.
O recital acontecerá numa casa companheira de Largo da Velha-a-Branca, no largo do mesmo nome, número cento e trinta e seis, até há pouco a sede dos trabalhadores dos CTT para actividades culturais e de recreio.
A Velha-a-Branca é uma associação cultural com mais de vinte anos de vida. O Sindicato de Poesia esteve presente no primeiro edifício que a Velha-a-Branca utilizou para desenvolver as suas atividades: foi aí, num edifício há algum tempo desabitado e ainda sem condições, que realizou o recital DJ Beckett in the House, enchendo todos os compartimentos com as palavras poéticas de Samuel e dando a ver o edifício que se estreava, mesmo velho e decrépito, a quem o visitava por esses dias.
“Estivemos também no encerramento desse velho edifício, mais desgastado ainda, a chave na mão, dando voltas naquela fechadura que se abrira milhares de vezes para tantas actividades, rodando a chave no sentido contrário – no mesmo edifício que, sem obras que lhe acrescentassem segurança, foi sendo consumido pelo tempo, como todos os edifícios, como todos os corpos – vestindo a pele de Anjos, deixando naquelas paredes o perfume de uma poesia santa que ainda por lá deve perdurar”.
Enquanto a Velha procura uma nova casa, o Sindicato quer manter e alimentar esta relação antiga, avançando, neste momento, com este recital e esta precisa poesia, numa vizinhança segura, em concreto nesta casa, companheira de Largo, da Velha.
De resto, são os cúmplices do costume. No recital estarão os habituais declamadores do Sindicato de Poesia, uns mais velhos, outros mais novos, em conluio com a Escola de Dança Arte Total.
Haverá ainda convidados que, através da sua voz específica, querem estar com a poesia de Regina Guimarães, mas também com o Sindicato, e com a Velha, neste outro gesto de afirmação e culto da velha Liberdade.
O recital poderia chamar-se Santa Liberdade — e com carradas de razão. Poderia chamar-se Chocolates Regina, tantas são as pérolas doces e amargas que a escritora, por vezes furiosa, desencrava da garganta em forma de palavra. Poderia chamar-se Salvé Regina, porque de uma rainha se trata.
Mas vai chamar-se ‘A BOCA CHEIA DE PALAVRAS’, um verso de um dos seus poemas. Porque será isso mesmo que irá acontecer: “iremos com a boca cheia de palavras — apenas palavras, sem artifício algum, desarmados de outros truques, nada na mão nada na manga — encher a casa. Palavras que são pensamento, que são ação e que, sendo presente, são futuro”.
