Minho

CEB quer tornar a indústria têxtil nacional mais sustentável enquanto valoriza e dá nova vida a resíduos agroflorestais

E se os resíduos agroflorestais tivessem o potencial de dar origem a têxteis com propriedades antimicrobianas, antifúngicas, antioxidantes e até antifogo? Esta é já uma realidade em construção no Centro de Engenharia Biológica da Universidade do Minho, através do Projeto NaturTex, coordenado pela investigadora do CEB, Carla Silva, e que tem como entidades parceiras a Universidade da Beira Interior (UBI) e a empresa LandraTech. O objetivo é aproveitar subprodutos de espécies como o carvalho (Quercus spp.), amendoeira, cerejeira, oliveira e mirtilo, de modo a desenvolver soluções ecológicas e de valor acrescentado para novos têxteis. O NaturTex prevê ainda a valorização de produtos têxteis do interior de Portugal, como a lã bordaleira da Serra da Estrela, havendo já empresas interessadas nos seus resultados.

Atualmente no segundo ano de implementação, o Projeto já apresenta resultados muito positivos, especialmente no tingimento de fibras como a lã e o algodão. “Os pigmentos naturais extraídos demonstram boa intensidade e solidez da cor à lavagem doméstica e à exposição à luz, reforçando o potencial do NaturTex para promover processos mais sustentáveis e funcionais na indústria têxtil”, realça Carla Silva.

Mas como é que esta transformação acontece? O primeiro passo envolve o contacto com produtores das regiões do interior de Portugal, que fornecem os resíduos agrícolas e florestais que não conseguem valorizar. A partir destes recursos, são aplicados métodos inovadores com base em química verde, capazes de extrair compostos bioativos e pigmentos naturais. Estes compostos são depois utilizados na funcionalização de fibras têxteis, como a lã da Serra da Estrela, em substituição dos corantes sintéticos, atribuindo-lhes características melhoradas e promovendo o reaproveitamento sustentável de materiais subvalorizados.

O uso de solventes naturais eutécticos, uma tecnologia pioneira e amiga do ambiente, é um dos pilares da investigação. Além de possuírem propriedades bioativas que podem ser aproveitadas, estes solventes ‘verdes’ não tóxicos permitem extrair os compostos bioativos de forma eficiente, eliminando resíduos químicos e reduzindo o impacto ambiental.

Ao trabalhar com a lã bordaleira da Serra da Estrela, frequentemente descartada devido à sua textura mais áspera, o NaturTex está também a contribuir para a valorização de um recurso local subaproveitado. Ao melhorar as propriedades técnicas das fibras, é possível torná-las mais atrativas para o mercado, e são várias as empresas que já demonstraram interesse na futura incorporação dos pigmentos naturais, evidenciando o potencial do Projeto para a transferência de conhecimento e aplicação industrial.

Com uma abordagem inovadora, o NaturTex posiciona-se como um exemplo claro de como a ciência pode transformar desafios em soluções promissoras, beneficiando o meio ambiente e dinamizando a bioeconomia no interior de Portugal. A investigação poderá também ter impactos positivos na saúde humana, ao substituir corantes sintéticos por pigmentos e bioativos naturais menos tóxicos, reduzindo a libertação de químicos nocivos e os riscos associados ao contacto com a pele. Adicionalmente, as fibras funcionalizadas poderão ainda conferir propriedades antioxidantes e antimicrobianas, acrescentando valor à higiene e bem-estar dos utilizadores.

Este Projeto não só abre portas a um futuro melhor e mais sustentável, como reforça o compromisso do CEB com a investigação de excelência e a criação de um impacto positivo na sociedade.

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