Quando as mitocôndrias – responsáveis pela produção de energia nas células – deixam de funcionar corretamente, os mecanismos de compensação celular falham e podem agravar o desequilíbrio metabólico. Num novo estudo sobre este processo, uma equipa de investigação liderada pela Universidade de Coimbra (UC) mostra que os peroxissomas – organelos envolvidos no metabolismo dos lípidos – tentam compensar a falha das mitocôndrias, mas sem sucesso.
“Em resposta ao mau funcionamento das mitocôndrias, as células aumentam o número de peroxissomas. Os peroxissomas são como os ‘geradores auxiliares’ da célula estando envolvidos no metabolismo dos lípidos. Tanto podem quebrá-las em pedaços mais pequenos que as mitocôndrias conseguem usar, como sintetizar novos lípidos, importantes para a célula. À partida, parece uma resposta adaptativa lógica”, descreve a investigadora em doutoramento no grupo de investigação Comunicação entre Organelos no Envelhecimento e na Doença do Instituto Multidisciplinar do Envelhecimento (MIA-Portugal), Patrícia Coelho, também primeira autora do estudo.
Contudo, o estudo demonstra precisamente o oposto: o funcionamento dos peroxissomas está comprometido e estes revelam-se incapazes de eliminar os lípidos acumulados, tornando a resposta ineficaz e potencialmente prejudicial. “Identificámos um eixo funcional entre peroxissomas e mitocôndrias que é essencial para manter o equilíbrio metabólico da célula, mas que falha precisamente quando mais é necessário”, avança o líder do grupo Comunicação entre Organelos no Envelhecimento e na Doença do MIA-Portugal, Nuno Raimundo.
Esta descoberta é especialmente relevante para as pessoas afetadas por doenças mitocondriais, que afetam cerca de uma em cada cinco mil pessoas e que, em muitos casos, são graves ou fatais. Entre elas, a síndrome de Leigh, uma doença neurometabólica que se manifesta geralmente na infância e para a qual os tratamentos disponíveis continuam a ser muito limitados, é uma das mais severas.
Nuno Raimundo sublinha que “o estudo abre novas perspetivas ao identificar a comunicação entre mitocôndrias e peroxissomas como um potencial alvo terapêutico para reduzir o desequilíbrio metabólico associado a estas doenças”. Pode ter também implicações em doenças do envelhecimento em que a disfunção mitocondrial é um fator predominante, como a doença de Parkinson.
O estudo envolveu também outros investigadores da Universidade de Coimbra, nomeadamente do Centro de Neurociências e Biologia Celular (que, tal como o MIA-Portugal, faz parte do Centro de Inovação em Biomedicina e Biotecnologia) e da Faculdade de Medicina; e da Universidade de Oxford (Reino Unido) e da Faculdade de Medicina da Universidade Estatal da Pensilvânia (Estados Unidos).
