Ter de cuidar de um familiar mudaria os planos de ter filhos de 68,9% dos jovens entre os 18 e os 34 anos: 32,0% admitem que isso poderia levá-los a adiar a decisão de ter filhos ou mais filhos, 20,3% a ter menos filhos do que gostariam e 16,6% a reconsiderar a decisão de ter filhos ou mais filhos.
Só 20,0% dizem que os seus planos não seriam afetados. Os dados são do Barómetro FutURe 2026, um inquérito promovido pela Merck a 1.200 jovens em Portugal, divulgado no arranque da Semana Europeia da Fertilidade, que se assinala entre 2 e 8 de novembro. Nos últimos quatro anos, o Projeto FutURe já ouviu mais de 30 mil jovens em 12 países europeus.
A perspetiva de conciliar estas responsabilidades surge num contexto em que 74,8% dos inquiridos já cuidam ou consideram provável vir a cuidar de um familiar (em 70,7% dos casos, os pais) e 80,7% preferem garantir primeiro a estabilidade financeira e só depois ter filhos. Quando questionados sobre os fatores que pesam na decisão de ter filhos, 73,0% apontam a estabilidade financeira. Já 50,5% identificam a instabilidade financeira como o principal motivo para adiar a parentalidade. Apenas 7,2% selecionam a opção «idade e fertilidade» entre os principais fatores que influenciam a decisão de ter filhos.
É neste contexto que o Movimento +Fertilidade, uma iniciativa da Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução, da Associação Portuguesa de Fertilidade e da Direção da Subespecialidade de Medicina da Reprodução da Ordem dos Médicos, que a Merck também integra, vai propor ao Governo três ações prioritárias para que os jovens possam ter filhos a tempo: uma consulta de aconselhamento sobre fertilidade nos cuidados de saúde primários entre os 20 e os 35 anos, incentivos às empresas que apoiem a parentalidade e o cuidado de familiares, e tempos máximos de resposta na procriação medicamente assistida (PMA) definidos em função da idade.
Estas prioridades enquadram-se nas 15 recomendações organizadas nos eixos Literacia, Trabalho e Acesso. As propostas resultam de uma análise comparativa das políticas de vários países europeus, feita no âmbito do workshop Tackling Infertility, realizado em abril, e serão acompanhadas de um pedido de reunião para discutir a sua implementação.
As empresas são parte da resposta: 72,4% dos jovens consideram o mercado de trabalho pouco ou nada preparado para as responsabilidades familiares e 71,6% afirmam que as políticas de conciliação influenciam muito ou bastante a escolha do empregador. A flexibilidade de horário (72,7%) e os benefícios de apoio à parentalidade (66,4%) são as medidas mais valorizadas. O Movimento +Fertilidade, que pretende unir entidades públicas, empresas e sociedade civil em torno da parentalidade, apela a que mais empresas se juntem a esta causa e subscrevam o Manifesto +Fertilidade.
O que dizem os jovens
Além da estabilidade financeira, o acesso à habitação (48,3%) e a estabilidade profissional (36,6%) pesam na decisão de ter filhos. Entre os motivos para adiar a parentalidade, a habitação (17,0%) e a prioridade à carreira (15,9%) surgem depois da instabilidade financeira.
A idade é dos fatores que menos pesam na decisão, mas a informação pode mudar escolhas: um em cada três (31,8%) anteciparia os planos se soubesse que a idade influencia a fertilidade; para 46,4%, isso dependeria das condições pessoais e financeiras. Oito em cada dez (80,5%) não conhecem bem as condições de acesso a tratamentos de fertilidade no SNS, como os limites de idade e os tempos de espera. Em Portugal, a idade média da mãe ao nascimento do primeiro filho foi de 30,7 anos em 2024, segundo o INE.
“Esta geração não está a recusar a parentalidade. Está a fazer contas: primeiro a estabilidade, depois os filhos, e pelo meio a perspetiva de cuidar dos pais. E a idade, o único fator que não espera, é dos que menos pesam nessa decisão”, afirma Pedro Moura, Diretor-Geral da Merck Portugal. “Temos apostado no FutURe para ouvir uma geração que vai viver mais anos, ter menos filhos e enfrentar novos desafios. Conhecer as suas escolhas é o primeiro passo para encontrar respostas que vão ao encontro das suas prioridades”, acrescenta.
Três ações prioritárias para chegar a tempo
O Movimento +Fertilidade vai enviar ao Governo 15 recomendações nos eixos Literacia, Trabalho e Acesso. Entre as propostas, destacam-se três ações prioritárias, relacionadas com os obstáculos identificados no Barómetro FutURe 2026:
Saber a tempo. Se só 7,2% dos jovens selecionam «idade e fertilidade» entre os principais fatores na decisão de ter filhos e um em cada três anteciparia os planos se soubesse que a idade influencia a fertilidade, o Movimento propõe um tempo obrigatório na consulta para aconselhamento sobre fertilidade nos cuidados de saúde primários, para jovens adultos entre os 20 e os 35 anos.
Poder a tempo. Se 8 em cada 10 esperam pela estabilidade e 7 em cada 10 admitem que cuidar de um familiar mudaria os planos de ter filhos, o Movimento propõe incentivos às empresas e instituições que adotem políticas de apoio à parentalidade e ao cuidado de familiares dependentes.
Chegar a tempo. Se 8 em cada 10 jovens não conhecem bem os limites de idade e os tempos de espera nos tratamentos de fertilidade do SNS, e se a decisão de ter filhos é adiada, a resposta clínica não pode acrescentar mais espera: o Movimento propõe tempos máximos de resposta garantidos na procriação medicamente assistida, definidos em função da idade, com reforço da capacidade dos centros públicos.
“Os jovens estão a fazer o que lhes parece responsável, mas a fertilidade não espera pela estabilidade: a partir dos 35 anos a qualidade dos ovócitos das mulheres diminui, e cada ano conta. É por isso que propomos agir em três frentes: informar a tempo, criar condições a tempo e garantir resposta a tempo. Queremos analisar estas medidas com a tutela, como ponto de partida para um Plano Nacional para a Natalidade”, defende Luís Ferreira Vicente, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução e representante do Movimento +Fertilidade.
