É Sun Tzu quem afirma “a melhor maneira de atingir o objetivo é permanecer na defensiva, evitando o combate”. No que à educação e ao ato de ensinar respeita, discordo totalmente. O ensino só acontece se do outro lado houver quem queira aprender. Às vezes há choques, mas depois, percebida a exigência, criam-se laços de empatia que levam a uma procura contínua – e mútua – de sucesso.
Terminou agora um ciclo de três anos com alunos que acompanho desde o 10º ano. Foi um ciclo totalmente diferente de todos os vividos até então, pois incluiu dois anos de E@D (Ensino à Distância). Deixando esses negros tempos, eis chegada a hora das despedidas. Das seis turmas que lecionei, quatro delas, acompanhei-as maioritariamente desde o 10º ano, e sinto poder dizer, missão comprida, mas cumprida. Em dois cursos profissionais, foram três anos de preparação para a vida ativa que lhes poderá surgir já no próximo ano, e sinto que todos evoluiram imenso. Como eu lhes dizia, só podiam, uma vez que… a margem de progressão era enorme. Aqui, não incluo, obviamente, a área específica da EF, pois com 90 minutos semanais o que podemos e devemos fazer, através de situações motivantes, é incentivar para uma vida ativa, pois quem fazia milagres, foi crucificado já lá vão mais de dois mil anos.
Com os finalistas dos cursos científicos posso dizer que também tive sorte – embora esta, às vezes, dê muito trabalho – ao lidar com alunos que sabem haver vida para além da escola e existir escola para além das quatro paredes da sala de aula ou do pavilhão. Alunos interventivos e assertivos na vida comunitária e escolar com cargos de responsabilidade, participando em atividades extracurriculares, mas mantendo permanentemente o foco académico. Também tive alunos que mantinham, em permanência, trabalhos extra (às vezes pela noite dentro) ao longo do ano, para fazer face a despesas e que por isso (quando) vinham (era) quase dormir para as aulas. Mereciam (e tinham) tratamento diferenciado (e até condescendente) algumas vezes, para conseguir o equilíbrio necessário entre o estudante que a legislação define e o trabalhador precoce que a vida obriga.
Já lá vai mais de uma década quando rejubilei com uma aluna “vintage” (nota máxima a todas as disciplinas) numa direcção de turma (DT) em 2011. Então, que dizer este ano com 4 alunos “vintage” na minha DT e um outro que acompanhei ao longo de três anos também, numa outra turma. Não sei se nos exames, estes “vintage” vão igualar a de 2011, mas já me sinto realizado, pois a acrescer às avaliações, participavam ativamente em atividades extracurriculares. Coincidentemente, ou não, todos realizaram O Caminho de Santiago. E, por fim, embora a atualidade o incentive – falta de médicos no SNS – dos cinco, apenas um ou dois estão a pensar seguir carreira nessa área. A docência na área da matemática, a agricultura e as engenharias parecem ser apostas dos restantes vintages 21/22. Aquilo que lhes disse – repetindo 2011 – foi, “sigam os vossos sonhos”. Se forem excelentes e simultaneamente felizes na área escolhida, o futuro (deles e nosso) será risonho.
Carlos Mangas [Professor de Educação Física]
