Menina, mãe e cantadeira

Da menina que roía as unhas antes de entrar em palco à mãe da Vitória a caminho dos dois anos. De Moure na Póvoa de Lanhoso a Moure em Vila Verde. Da paixão das cantigas à paixão dos bordados. Naty Vieira, a rainha das cantadeiras como lhe chamam, abriu o livro da sua vida ao ‘Terras do Homem’. Há cinco meses sem trabalho espera “que a pandemia acabe depressa” para a podermos voltar a ouvir.

Comecemos pelo fim e pelas novidades. Naty Vieira voltou a fazer desgarradas com Augusto Canário. Dada a novidade, vamos para o início desta história.

Moure. Póvoa de Lanhoso. Naty Vieira nasceu rodeada de irmãos, primos e tios. “Era uma infância muito divertida. Na altura, havia mais brincadeiras do que há hoje” começa por recordar. Não frequentou a creche e até entrar na escola primária ia para o campo com os pais e fazia de tudo. “Foi uma infância muito feliz”.

Até aos seis anos, nada de cantorias. Aos 8, “o meu pai já brincava comigo e perguntava ‘uma palavra que rime com brincar, uma palavra que rime com comer’ e eu já ia fazendo umas pequenas rimas, na brincadeira”.

Os genes musicais vêm do lado paterno: “a minha avó tocava viola e cantava umas quadras, o meu pai toca concertina e faz umas desgarradas, mas ele nunca esteve só focado para o desafio, focou-se mais nos ranchos, onde esteve 30 anos, mas foi com ele que comecei nas desgarradas”.

A verdade é que cantava as primeiras rimas para agradar ao pai. “Nunca pensei que ia fazer disto vida até porque, naquela altura, eu não tinha ideia de como fazer quadras, eu só dizia uma palavra para entreter e estar ali na brincadeira”.

Primeira desgarrada

Barroselas. Viana do Castelo. Naty tinha 16 anos e sempre acompanhou o pai, aos muitos, encontros de concertina que havia na altura. Ela, os irmãos e a mãe que gosta das cantorias, mas não sabe fazer quadras.

“Um dia, e eu nunca tinha feito uma quadra completa, em Barroselas, o meu pai disse-me que ia cantar uma quadra com ele, eu disse logo que não porque nunca tinha cantado e ainda por cima com tanta gente a assistir”.

Toda a gente insistiu e lá se deixou convenceu. Antes de entrar, roeu as unhas até deitarem sangue. “Lá fui cantar uma quadra, sempre envergonhada a olhar para o chão. Disse o meu nome, que era da Póvoa de Lanhoso e tudo começou por aí”.

Como reconhece, “fui do zero para o 80”.

Primeira vez sozinha

Fafe. Sempre que lhe pedem ainda continua a cantar com o pai, mas “não é tanto”. A verdade é que a estreia foi “um abrir de portas, conheci outras pessoas e outros palcos”. O pai acompanhava-a à concertina.

No fim-de-semana seguinte à estreia, aventurou-se a cantar sozinha, ali para os lados de Fafe. “Disse ao meu colega cantador que não estava habituada, que não sabia dizer muitas quadras e ele disse-me que com a prática ia ao sítio. Estava muito nervosa, mas lá fiz umas quadras”.

Com o pai ao lado, sentiu-se retraída. “Como toda a gente sabe a desgarrada tem sempre umas palavrinhas mais picantes. Eu não podia dizer o que queria já que o meu pai estava lá e podia levar a mal, por outro lado, sentia-me segura porque se corresse mal ele entrava por mim e cantava umas quadras”.

Pouco depois grava o primeiro disco, juntamente, com o pai e Lobo de Felgueiras, gravado todo de improviso e na hora. A seguir grava outro com Casimiro Fernandes de Vieira do Minho. E foram tantos que já lhe perdeu a conta.

Banda de Augusto Canário

Sameiro. Braga. 100 anos da coroação da Senhora do Sameiro. Vários cantadores e cantadeiras são convidados a cantar na Cripta. Naty cantou com o Loureiro de Barcelos. Conhecia Augusto Canário dos encontros, mas não tinha muita confiança com ele. “Nesse dia, ele estava lá a cantar com outros e eu a cantar com os meus, disse-me que sabia que eu cantava e ficou para me ouvir”.

Nessa altura, convidou-a para ir às festas da Senhora da Agonia onde cantou umas desgarradas com ele. No ano seguinte, fez inúmeros concertos e foi então que surgiu o convite para integrar a banda.

“Fiquei efetiva, a participar 100% na banda a fazer desgarradas e coros, eu ainda disse se me aparecesse um ou outro espetáculo que iria fazer. O problema é que o Augusto Canário e Amigos ganhou tanto sucesso que não houve possibilidade de cantar com outros porque tínhamos muitos concertos”.

Primeira viagem

Estados Unidos. Tinha 19 anos quando Naty viajou pela primeira vez integrando a banda de Canário. “Viajar sem os meus pais era delicado, na altura”. Numa banda só de homens era a única rapariga. A fase de adaptação metia uma viagem de 70 quilómetros para Viana.

No entanto, os receios foram superados: “foi uma viagem muito divertida”. E num ápice estava a fazer 30 viagens por ano, “só aos Estados Unidos foram oito vezes”.

No entanto, a viagem mais marcante foi à Austrália. “São muitas horas para chegar lá, eu lembro-me que fizemos as contas e desde sair de casa até pisar o solo australiano foram 32 horas. Fizemos quatro ou cinco escalas”.

A cantadeira lembra que, muitas vezes, é difícil conhecer os locais porque “em muitas viagens íamos na sexta e vínhamos no sábado onde já tínhamos uma atuação”.

“A gente vai lá é para cantar, não é, propriamente, para conhecer, as pessoas pensam que vamos lá para passear, o que não é verdade. Quem nos está a acompanhar tem o seu trabalho e não está ali para nos levar a conhecer os locais”.

Mesmo assim, houve um país que teve oportunidade de conhecer e que lhe ficou na memória: o Canadá. “Íamos uma semana e havia sempre pessoas que tiravam uma semana de férias para nos levar a conhecer os sítios mais importantes”.

Namoricos

Moure. Vila Verde. São os namoricos que trazem Naty Vieira até Vila Verde. “Conheci o meu marido em 2012/13 e acabamos por casar em 2016 em Moure, Póvoa de Lanhoso. Como ele estava a trabalhar mais perto de casa e eu estava dedicada à música podia estar em qualquer lado, acabamos por vir parar a Moure, Vila Verde”.

É em Moure, Vila Verde, que batiza a filha Vitória. “Todos os meus sacramentos foram em Moure, Póvoa de Lanhoso e o primeiro sacramento da minha filha foi já em Moure, Vila Verde.

Pandemia

Hoje. A pandemia está a ser um martírio para os artistas. Recentemente e após cinco meses sem nenhuma atuação teve a primeira desgarrada e única.

“Não houve nem há trabalho, é muito difícil para quem vive da música. Estou há cinco meses sem ser remunerada. Eu tenho família, tenho marido que está a trabalhar, mas esperam-se dias melhores, há esperança, mas a esperança não nos dá de comer. Na parte da música funciona como a formiga, amealhar no verão para gastar no inverno e este ano como não há festas, o inverno não promete nada de bom”.

“Gostava de ter novos projetos se a pandemia acabar porque na realidade faz falta fazer coisas. A desgarrada para mim está perfeita é aquilo que gosto de fazer”.

Cantadeira mais madura

É a Naty de hoje igual à menina que roía as unhas? “É igual mais crescida com o passar dos anos, a própria vida vai-nos dando lições para o bem ou para o mal, mas, no fundo, sou a mesma pessoa, sou brincalhona sempre me considerei humilde, no entanto, olho para a vida com outros olhos. O fato de ser mãe muda muito o nosso percurso”.

Até as próprias rimas e quadras sofreram mudanças: “nas primeiras que fazia eu punha-me a olhar para quem estava a ver, chegava a minha vez de cantar e eu não sabia o que o cantador tinha dito e ficava atrapalhada, com o passar dos anos fui ganhando calo e não perco a noção”.

Mas há mais diferenças: “as quadras antigamente eram mais simples, mais divertidas, tinham graça, agora são mais banais parece que anda tudo a copiar uns aos outros e nós temos que primar pela criatividade, eu tento aperfeiçoar as quadras em função do local onde vou cantar”.

“Tenho a noção que há cantadores que não saem daquilo independentemente do que se peça para cantar. A grande maioria dos espetadores quer brincadeira, mas temos sempre que apalpar o público e ir pela sua reação. Tenho a noção que muitas vezes o público está a ouvir uma cantadeira que diz uma brincadeira e 20 pessoas riram daquilo, mas há outras 50 que não acharam piada nenhuma. E muitas vezes quem está no palco não se apercebe, não tem noção disso e continua a cantar o que bem lhe apetece”.

Bordar: outro ‘bichinho

A vinda para Vila Verde fez Naty despertar para uma outra paixão ‘escondida’: os bordados. “Comecei a aperceber-me dos lenços dos namorados e de como gostava de aprender. Descobri onde ter formação, aprendi e agora faço os meus trabalhinhos, criei uma página na internet e vai dando para pagar a água e a luz”.

Bordar “dá imenso trabalho” e as pessoas “não têm noção do trabalho que é bordar um lenço regional. Faço por gosto porque não podemos levar o valor das horas que se gastam a fazer um lenço, às vezes fico um mês, quatro a cinco horas por dia davam muitos euros, mas não podemos ir por aí”.

Por ser minucioso, é um trabalho que Naty gosta de fazer.

Experiência de ser mãe

Desafiadora. É o adjetivo que a cantadeira usa para se referir à primeira experiência como mãe. Vitória vai fazer dois anos. “Muitas mães têm os filhos e aos dois/três meses vão para a creche porque têm de ir trabalhar, no meu caso a minha profissão dá para estar em casa. A Vitória está comigo há quase dois anos e está a passar a fase de estar amarrada a mim”.

Na idade certa irá para o jardim-de-infância: “quando for, acho que não vai ter problemas porque quando não está com a mãe ela convive bem com as pessoas. A noção de partilha vai-lhe fazer bem porque não tem irmãos”.

No entanto, têm sido dois anos ‘duros’ e a Naty reconhece que, também, “está a precisar de descansar um bocadinho”.

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