Um Entremez Rococó

É tempo de rococó em Vila Verde, cuja biblioteca municipal inaugura, no próximo dia 4 de Setembro, a primeira mostra em Portugal sobre as marcas daquele estilo no património arquitectónico religioso de um concelho, em resultado do levantamento exaustivo feito pelo curador da exposição, Eduardo Pires de Oliveira.
O rococó destacou-se em várias artes para além da arquitectura, incluindo a pintura, a escultura e a música, nomeadamente a ópera. Não será de espantar que, na literatura, sobressaia no drama, género literário que mobiliza as características de movimento e teatralidade que o distinguem, mas também a paradoxal combinação entre o naturalismo dos ornamentos e a exuberância com que são representados.
Fenómeno interessante que, embora de origem medieval, se adequa bem à volubilidade de um rococó profano são os Entremezes, pequenas peças de teatro, em um só acto, normalmente representadas no intervalo (“entremez”) de uma ópera ou peça mais longa e caracterizadas pela sátira e pela abordagem de temas quotidianos. Sem data ou autor apostos no frontespício, o “Novo e Gracioso Entremez intitulado A Ratoeira En [sic] Que Amor Pilha os Pobres Namorados” datará provavelmente da segunda metade do séc. XVIII, época em que as mulheres das classes altas começam também a ser instruídas, exigindo um papel mais interveniente na sociedade, o que se reflecte na trama de várias peças e textos literários; este conta como duas jovens mulheres e a criada delas, mais velha e sabida, discutem a melhor estratégia para seduzir os homens, aproveitando a sua prosápia e convicção de superioridade para os fazer cair na ratoeira… do amor. As raparigas riem-se do convencimento masculino, gozando: “a hum leve volver dos nossos olhos, cahe por terra todo o Poderozo edifício da sua prezunção”. E, na verdade, lá mais para o final, um dos fogosos namorados em quem experimentam as artes da sedução, acaba por confessar: “Cahi como um patinho!”.
Um dos raros exemplares ainda existentes desta peça ligeira e bem humorada é um dos tesouros da Biblioteca Municipal Prof. Machado Vilela, de Vila Verde, e poderá em breve ser lido, em versão electrónica, na AquaLibri, a futura Biblioteca Digital do Cávado. Estejam atentos e, entretanto, não percam o pretexto para uma visita à exposição “Ornato & Graça”, em cena entre 4 e 22 de Setembro.

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