“O Eterno Retorno do Fascismo”

Provavelmente, desde Fevereiro que não dou um beijo ao meu Pai, à minha Mãe, à minha Avó. Para além da tristeza que esta situação configura, existe aquele sentimento de medo de podermos estar contaminados debaixo do manto da assintomatologia deste vírus. Desta forma, as práticas de sempre tornam-se relegadas para um plano ínfimo “até que as coisas melhorem”.

Ora, é natural que a doença, algum dia, deixe de se manifestar com tanta gravidade, sobretudo após o descobrimento de uma vacina capaz de encontrar o tão desejado efeito imunológico. No entanto, enquanto os dados apresentados diariamente forem os reflectidos a cada segundo, a acção comportamental não irá variar um único centímetro para além do que temos assistido nos últimos meses.

Sublinho que considero esta pandemia suficientemente grave, conquanto sem a verdadeira razão do seu surgimento estar totalmente esmiuçada. No entanto, a CoViD-19 não deverá, nunca, servir de suporte aos mais vis assaltos à dignidade social e humana.

Estou manifestamente propenso a aceitar a tese de que a nossa acção destruidora sobre o planeta potenciou – e continuará a potenciar – o aparecimento desta e de outras manifestações víricas, que se espalharão, à velocidade da luz, pelas linhas das mais diversas latitudes do planeta. Não obstante, as consequências da potenciação ideológica da dominância capitalista, sobre os meios de comunicação social dominante, será profundamente devastadora.

Este “novo mundo” que se nos ofereceu, esta “nova normalidade” que aqueles apregoam, deverá ser objecto inciso de repúdio e luta. Desejaremos nós, ad aeternum, vivermos com medo, alarmismo, de modo individualista, conformista, subvalorizando a criminalização da luta por direitos consagrados, com a normalização dos ataques aos direitos dos trabalhadores, e, sobretudo, com a imposição da limitação às liberdades democráticas e constitucionais? Obviamente, não!

A impressiva capacidade de os meios de comunicação social dominantes, subjugados à garra depredadora do imperialismo capitalista, degredarem para o esquecimento popular os problemas que uma demasiada parte da nossa sociedade vive, é assoladora. Por exemplo: em Portugal não têm sido noticiadas as greves em instituições diversas como o Pingo Doce, o Lidl, a Super Bock, a Petrogal, a Coca-Cola, o grupo Dia, a Bosch, também os CTT – ao longo de todo o País –, em centenas de outras empresas que promovem despedimentos ilegais, após usufruírem do instrumento manipulador do Layoff, sem esquecermos as gravíssimas dificuldades que centenas de associações portuguesas atravessam, impedidas, desta forma, de alcançarem os objectivos pelas quais fundamentam a respectiva existência.

Este silenciamento, e, por oposição, a promoção do insuportável “novo normal” como indispensável e eterno, transformou-se na mais recente e potente arma do Capitalismo que, com o apoio público e massivo da facção radical da direita política, pretende grassar no seio da comunidade, almejando uma cavada transformação do modo de vida dos trabalhadores e da sociedade em geral.

Este “eterno retorno do fascismo”, como tão bem reflectiu Rob Riemen, está sempre latente, na sombra, ao virar da esquina, disponível e pronto para lançar o caos no âmago das massas populares mais desprotegidas.

Assim, desde há mais de um século, nunca deixou de ser momento de luta. No entanto, é agora mais do que nunca!

Bruno Marques

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