Sapiens: de animais a deuses

Quem somos? De onde vimos? Para onde vamos? Desde sempre nos fazemos estas perguntas, sem que uma resposta definitiva sossegue as mentes inquietas.

Ao escrever Sapiens: breve história da humanidade (Elsinore, 2013), o historiador israelita Yuval Noah Harari lançou-se numa empresa tão ousada quanto polémica, que procura compreender e explicar o que fez do género sapiens o vencedor da diversidade inicial da espécie humana (lembremo-nos do nosso irmão Neanderthal, com quem chegámos a cruzar-nos, mas que ficou pelo caminho), o que o levou a expandir-se e a afastar-se, com grande velocidade, da vida descansada do nomadismo e da recolecção, e o caminho que o conduzirá, eventualmente, à extinção, pela transformação noutra coisa ainda.

Construído em quatro partes que resumem aquelas que o autor considera as três grandes revoluções da espécie – cognitiva, agrícola e científica -, o livro parte de um apaixonante primeiro capítulo, em que observamos a diversidade do género humano até há ainda 12.000 anos e a conquista da supremacia pelos frágeis sapiens, e conclui-se com uma visão de futuro que pouco sossego traz, transformado o sapiens numa espécie biónica, amortal, um ciborgue “com traços inorgânicos (…) que alteram as nossas capacidades (…) e identidades”.

Ficamos a saber que, ao domesticarmos o cultivo do trigo, quem verdadeiramente ganhou foi o cereal, que se expandiu pelo mundo inteiro de forma impossível em estado selvagem, talvez da mesma forma que, ao desenvolvermos hoje a tecnologia a um ponto nunca imaginado, quem ganhará será esta, apoderando-se dos nossos corpos e, finalmente, das nossas mentes – aquelas tão especiais que, através da imaginação, da ficção e da bisbilhotice (leu bem, leitor, da bisbilhotice…)deram forma a esse ser único e dominador, a que se convencionou chamar Sapiens.

Um aviso final aos leitores: Yuval N. Harari parte de conhecimentos científicos muito actuais mas, ao resumir a história da humanidade em menos de 600 páginas, e ao desenvolver uma teoria própria, nem sempre é totalmente rigoroso. Use e abuse, pois, do espírito crítico, nesta fascinante leitura, como deve aliás fazer sempre.

 

Manuela Barreto Nunes [Bibliotecária]

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