Bifes Mal Passados

Ao longo das últimas semanas andaram pelas bocas do mundo e das redes sociais as políticas interesseiras de abre e fecha portas do governo britânico, as incongruências do português e os destemperos dos súbditos de Sua Majestade por terras de Portugal, mais precisamente da cidade do Porto, onde vieram celebrar a Champions numa roda livre de desrespeito pelos cuidados sanitários e pelas regras de convivência social impostos pela pandemia, arriscando a sua vida e a daqueles que tão hospitaleiramente os receberam.

É claro que precisamos, mais do que nunca, do turismo, de ocupar hotéis e restaurantes, de libras a circularem pelo comércio nacional, de alguma promessa de respiração depois de tanta tragédia. Mas certamente não precisamos de selvagens com poses imperialistas a entrarem num país estrangeiro como se de propriedade sua se tratasse.

O livro que hoje se propõe permite-nos uma pequena vingança humorística: a de, através da pena de um dos mais importantes cientistas portugueses contemporâneos, em tempo de crise e de egos maltratados, nos podermos rir das idiossincrasias britânicas e recuperar alguma auto-estima na evidência da nossa superioridade civilizacional, enquanto país do Sul, face aos tristes e bárbaros costumes ingleses.

Conta-nos João Magueijo, ilustre cosmólogo em terras de Sua Majestade, que eles são porcos, bêbados sem remissão, que a sua comida é inenarrável e as praias lugares pedregosos e lamacentos onde nenhum português que se preze consegue meter o pé, quanto mais mergulhar o corpo. A linguagem do autor é verrinosa, o estilo vernáculo e impróprio para almas sensíveis, o humor descarado. Em Bifes mal passados (Gradiva, 2014), Magueijo oscila entre a autobiografia de um português entre os bifes (os britânicos, ou ingleses, para simplificar), o irónico relato etnográfico e as memórias de infância, transportando o leitor numa divertida viagem de férias ao fundo mais fundo do Reino Unido, ao mesmo tempo que o aconselha a nunca empreender tal viagem. Os mais afoitos que se atrevam – sabendo que, depois de lido este livro, nunca mais o nosso olhar sobre os bifes será o mesmo. E que, vindos de tão rude terra, são mais merecedores do nosso lamento do que da nossa ira. Vingança consumada, com humor e sem guerra, não acha, leitor?

Manuela Barreto Nunes [Bibliotecária]

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