Fidalguinhos da Mouraria a Caminho de FINISTERRA

Em fevereiro de 2020 e após encerramento das inscrições de alunos para o XII Caminho de Santiago iniciei um artigo de opinião da seguinte forma “Numa altura em que se questiona tudo e em que as escolhas de cada um são escrutinadas ao pormenor, há uma que os finalistas da ESVV tornaram e tomaram como consensual – O Caminho de Santiago”. Mal eu sabia que esse Caminho seria adiado. O COVID que nos fechou em casa em março de 2020 e, novamente, em janeiro deste ano, não permitiu que considerássemos existirem condições de segurança para levar os nossos finalistas (19/20 e 20/21) naquela que consideramos (e eles depois confirmam) a sua melhor aula de sempre, desde que ingressam na escolaridade obrigatória.

O grupo de professores que organiza a atividade, estava desde há muito com vontade de fazer…o que ainda não tinha sido feito (Santiago – Finisterra) pois, com alunos, os cinco dias habituais apenas nos permitem chegar a Santiago e regressar. Um grupo de “maduros”, entre confrades e candidatos a sê-lo, decidiu ter chegado a altura de O fazer. Após algumas profícuas conversas, sentindo-nos minimamente seguros – duplamente vacinados – e com os cuidados devidos, a equipa que já levou 11 diferentes anos de finalistas a Santiago, desta vez, apenas com colegas docentes e alguns amigos de sempre, arrancou até ao…fim da terra.

Chegados a Santiago na 5ªfeira de manhã tentando uma entrada (não conseguida) na Catedral através da Porta Santa – por ser ano Jubileu – antes de meter pés ao Caminho, tivemos a surpresa de ver grande aparato policial devido a visita do Rei de Espanha. Sabíamo-nos importantes, mas nunca julgamos ao ponto de o Rei decidir vir testemunhar a nossa saída rumo a Finisterra. Cumprimentamo-lo – à distância – ele também nos acenou, obviamente, e depois de carimbarmos a credencial no local onde habitualmente recebemos a Compostela, metemos pés ao Caminho pela hora de almoço o que levou a que um dos participantes considerasse que estamos a ficar muito chiques batizando-nos com o cognome de “Fidalguinhos da Mouraria”.

Com uma carrinha e um jipe de apoio, a estratégia era levar uma das viaturas até ao local do almoço e voltar na outra para iniciar o percurso. Enquanto se solicitava o almoço, ia buscar-se a carrinha que tinha ficado no inicio e juntavam-se as duas. Duas pessoas que terminassem primeiro o almoço, levavam uma das carrinhas para o final da etapa voltando na outra ao local de almoço e no final do dia repetia-se a estratégia. Assim, conseguíamos sempre garantir que alguma necessidade de apoio por lesão seria rapidamente suprida pois levamos, como habitualmente, um ultramaratonista – Ribeiro – que rapidamente faria o percurso mais curto, a correr, para ir buscar um dos veículos. Felizmente nunca fez falta, o que não invalidou que algumas vezes não nos deixasse para fazer o seu treino de corrida. Já com estadias devidamente marcadas, seguimos para a 1ª etapa de sensivelmente 21 km que nos levou até Negreira. Um percurso bonito sempre por bosques (sensivelmente 8 km) até ao almoço pelas 15h00 em Alto de Vento, complementado os restantes 13 km até ao final da tarde, com subidinhas interessantes que nos levaram ao destino, dando entrada no Albergue pelas 20h. O 2º dia era o mais difícil com estirada de 33 km que nos levava até Oliveiroa. Uma manhã preenchida por bosques e veredas com a parte final junto às eólicas mostrava que, garantidamente, se estas não costumam estar em zonas baixas, então, eramos nós que estávamos em zonas altas. Almoço ao km 13 o que deixava para a tarde uma estirada de 20 km. Voltamos a descer e a subir a locais merecedores de… eólicas. Em Oliveiroa aguardava-nos um Albergue com restaurante acoplado o que poupou as pernas massacradas. No dia seguinte dos 19,5 km previstos até CEE só nos primeiros 6 havia cafés pelo que nos munimos de mantimentos para comer “a sério” numa linda igreja encontrada sensivelmente a meio do percurso. Piquenique terminado seguimos para CEE, numa etapa cuja parte final não é aconselhada a pernas e pés sensíveis, devido às acentuadas descidas com piso em gravilha. Chegados relativamente cedo (16h) e com o mar junto ao Albergue, fez-se a 1ª tarde de praia do ano, havendo até alguns banhistas corajosos, atendendo à “elevada” temperatura da água. O 4º dia, o da apoteose, reservava-nos apenas 15,4 km até ao Km ZERO que se encontra no cabo de Finisterra. Antes de Finisterra, numa praia, alguns dos peregrinos percorreram dois km descalços, junto à água, fazendo um pouco de gelo que os pés pediam. Chegamos ao Km ZERO pela hora de almoço, aconteceram os habituais abraços (ainda contidos) e as fotos da praxe, regressando depois a Finisterra onde pimentos padrão, vinho ribeiro, canhas, uma magnífica paelha, foram uma espécie de prémio de mais uma conquista. Saímos pelas 16 horas em direção a Santiago onde, finalmente, conseguimos entrar na Porta Santa da Catedral cumprindo o ritual de visitar o túmulo do Apóstolo, já que o abraço ao dito – devido a regras COVID – ainda está interdito.

No Caminho sentimo-nos sempre em casa, mas desta vez, e embora tenhamos começado já em Santiago, parecia que estávamos em Portugal, pois a habitual saudação de “bom Caminho” era quase sempre proferida na língua de Camões. Inúmeros portugueses já estavam com saudades do Caminho e, a pé ou de bicicleta, aproveitaram estes dias, em ano Santo, para se limparem completa e interiormente.

Regressados a casa e muitos de nós à ESVV, após mais um Caminho, cabe-nos agradecer à Junta de Freguesia de Vila Verde e Barbudo, a cedência de uma carrinha de apoio, esperando no próximo ano necessitar de duas, sinal que os nossos finalistas, a exemplo de onze grupos que os antecederam, voltarão aos trilhos e à melhor aula de sempre…connosco.

Carlos Mangas [Professor de Educação Física]

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