Cartas a um amigo que lê jornais#7

Lembrando os últimos romeiros a que assisti no concelho de Vila Verde.

Amigo, hoje escrevo-te para partilhar contigo um acontecimento que eu presenciei com satisfação, felicidade e muita alegria, há cerca de 30 anos a trás, em frente da casa de uma pessoa de minhas relações, a quem dispensava muita amizade.

Era essa casa situada no lugar dos Carvalhinhos, lugar localizado no cimo de um monte, na freguesia de Gomide, concelho de Vila Verde. Foi onde deparei, certo dia, com um grande grupo de raparigas, grandes e pequenas, ou seja adultas, adolescentes e crianças.

A muita confiança que tinha com a família daquela casa autorizava-me a entrar porta adentro. Entrei, e dirigindo-me à dona da casa, depois de a cumprimentar afavelmente, perguntei:

– Rosinha… que se passa para estarem lá fora tantas raparigas em franca conversação?

A Rosa respondeu: – São as romeiros que sairão para o Santo Amaro de Atães. Esperam por nós porque a promessa é minha!

Depois de ouvir a Rosa compreendi porque minha companheira Delfina esteva tão interessada em ir à casa da irmã em Gomide, levando connosco o neto Víctor Osvaldo. Efetivamente, a ‘Fina’ nunca me pedia para ir fosse a onde fosse, mesmo que tivesse necessidade de ter que aí se deslocar.

Todavia, naquele dia perguntou-me: – Zeca… tens algum compromisso para hoje de tarde?

-Não, não tenho. Hoje podes dispor de mim durante todo dia – respondi, embora estranhando a pergunta.

– Então podes levar-me a Gomide a casa de minha irmã Rosa? – perguntou ela, ao que eu respondi:

– Levo-te pois…. se quiseres até te levo ao cabo do mundo minha ‘joinha’…

Foi assim que eu deparei, pelas 13 horas daquele domingo, com o cenário dos romeiros no lugar dos Carvalhinhos da freguesia de Gomide, em frente da casa de Rosa do Venda.

Eram 14 horas quando as romeiras iniciaram o cortejo para alcançar a capela de Santo Amaro de Atães, cantando ritos religiosos.

Desceram o resto da encosta do monte, por um carreiro existente entre um carvalhal imenso, pertença do Passal. Alcançaram o caminho para a Igreja da freguesia, este já mais largo, e o seu tapete era como uma calçada à portuguesa, mas, em grande parte, era de terra batida.

Foi neste caminho que me apercebi que, afinal, se tinham incorporado no cortejo mais pessoas, além das que estavam em frente da casa da Rosa do Venda, irmã da Delfina do Venda. Todas as raparigas formavam uma longa fila de duas a duas, as quais, durante todo o caminho, cantavam e rezavam os rituais que era prática cumprir em tais ocasiões.

Eu tinha deixado o carro em frente à igreja. Entrei nele. Delfina do Venda e o neto preferiram seguir caminho a pé. Acompanhavam a Rosa do Venda, a quem a promessa feita imponha que o percurso a fazer seria acompanhar os romeiros a pé até à capela do Santo homenageado.

Assim eu segui no carro até ao sitio, satisfeito e muito bem disposto, com peito cheio de felicidade por durante todo o tempo gasto ao atravessar, a passo de caracol, as freguesias de Gomide, Barros e parte da freguesia de Atães, tendo sido beneficiado com a suprema felicidade de durante largo tempo ter desfrutado de hinos e rezas que cavaram fundo na minha alma.

Este maravilhoso acontecimento foi uma recordação de vida, que me acompanhará certamente até ao último momento que tiver de vida.

E, como podes verificar amigo, por vezes o que se nos apresenta como insignificante pode ter uma colossal e extraordinária força para mostrar caminhos que nos conduzem a um bem estar excecional de felicidade sem limites.

 

Serra Nevada [Escritor]

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