Centro de Bem Estar animal de Amares um exemplo seguido no resto do país

Cookie e Jolie são os mais antigos na ‘casa’. Por isso, são os primeiros a dar sinal quando um ‘desconhecido’ entra na sua ‘casa’. A algazarra começa a diminuir quando veem o ‘intruso’ a conversar com quem conhece os cantos à casa. Estamos no Centro de Bem-estar animal de Amares, na freguesia de Dornelas, e os dois cães rapidamente mostram a sua afetividade.

Manuel Vasconcelos é o tratador, o primeiro a chegar e o último a sair e os elogios ao seu trabalho são transversais. “Chegam cães muito assustados e pouco sociáveis e de uma semana para a outra nota-se logo uma mudança”, refere Nathalie Azevedo, uma das voluntárias e, também, presidente da associação ‘Patudos de Amares’.

O projeto do Centro de Bem-estar Animal de Amares tem merecido rasgados elogios de vários quadrantes e já serve de referência para a criação de outros equipamentos similares espalhados pelo país.

“O conceito de Amares é diferente e daí se chamar Centro de Bem-Estar Animal. São dois projetos num só, digamos assim”, começa por revelar o vereador do ambiente, Vitor Patrício.

“Os municípios têm um centro de recolha oficial como nós temos, que as pessoas visitam, mas é uma situação muito difícil porque nós não sabemos o estado dos animais, vêm da rua, sem vacinas, com doenças. No nosso modelo temos um outro edifício, o eco canil, financiado pelo Fundo Ambiental no âmbito da economia circular, e está adaptado para populações e escolas, as boxes que lá existem são as que estão preparadas para as pessoas visitarem.

Resumindo: os animais entram no CRO fazem a quarentena e os que estiveram disponíveis para adoção passam para o tal edifício onde está o eco canil e onde se faz o contato com as escolas e a população. “A ADGAV e o Ministro gostaram muito do projeto e ele tem sido falado ao longo de todo o país, não só pela questão da economia circular, mas, sobretudo, porque evita o contato da população com animais errantes dos quais não se conhece a sua condição. No eco canil, as pessoas podem conviver com eles, passear os cachorros, etc.”, refere ainda o vereador.

Todos os animais que estão no eco canil estão prontos a serem adotados e o número de adoções tem das taxas mais elevadas do país.

“O eco canil pode ser uma das explicações para as taxas elevadas de adoção de animais: motivou sempre a curiosidade das pessoas porque é um conceito novo em Portugal. Há muitos espaços ligadas à economia circular, mas nenhum afeto a um canil, e desde que o projeto foi conhecido temos tido adotantes desde Évora, passando pelo Porto, Ponte de Lima e acabando em Vila Verde”, acrescenta Vitor Patrício.

Um protocolo com uma associação na Alemanha faz a ponte de ligação e alguns são adotados lá fora. “Nenhum animal sai do canil que não esteja completamente desparasitado, tenha a vacina da raiva ou sem microchip, há, portanto, uma responsabilidade da família adotante que ao fazer o processo de adoção sabe ao que vai. Nós fazemos, também, uma espécie de rasteio das famílias para conhecer as intenções e as condições e depois vamos partilhando Facebook as imagens dos animais nos seus novos donos”.

Celas
No total, entre as duas estruturas, há 34 celas o que equivale a mais de 100 cachorros. “As celas não são individuais, apesar de tentarmos manter cães em jaulas individuais, mas por exemplo, recebemos uma cadela com nove filhos que estão todos juntos. Iremos tentar que não passem dois animais por cela, porque pelo que já percebemos, até pela experiência de outros centros, que o ideal é manter um ou quando já se tem confiança no animal colocar outro. Só recolhemos animais em Amares apesar de termos pedidos de Braga, Vila Verde, Póvoa de Lanhoso”.

Os cães abandonados são sinalizados por pessoas, a autarquia faz a recolha e depois analisa se tem microchip ou não, se tiver, o proprietário é notificado para vir fazer o levantamento, e passa a ter umas taxas associadas, se não tiver, faz uma quarentena e depois disso fica disponível para adoção. Durante esses quinze dias vê-se se está bem de saúde, é colocado um microchip, é feita a desparasitação interna e externa.

Veterinário
O Centro de Bem-estar animal tem o apoio do veterinário municipal que vai regularmente dar apoio aos animais e na parte das vacinações. Uma vez por semana, vacinas que eram dadas no largo da Feira passam para o eco canil.

“Temos ainda a tradição de deixar o animal ir dar uma voltinha e muitos desses cães que vemos na rua têm proprietário, há situações em que há reclamações, vamos recolhê-los, verificamos que têm microchip e há também aqueles que se perderam ou fugiram. A maior parte são de Amares, mas já tivemos cães de Barcelos ou Terras de Bouro. Os proprietários são obrigados a virem buscar os animais, temos uma articulação com a GNR que é a própria que notifica para vir fazer o levantamento”.

Voluntariado
“As pessoas vão estando sensibilizadas para a causa animal em Amares, alguns ainda mostram perplexidade pelos procedimentos necessários para a adotar, há algum trabalho a fazer até porque a lei mudou muito. A mensagem vai passando”.

O vereador do ambiente destaca o trabalho do funcionário a tempo inteiro, o tratador Manuel Vasconcelos e da funcionária que faz toda a parte administrativa e de apoio à parte veterinária”.

Importante é o papel dos voluntários. “O voluntariado é limitado, temos uma capacidade máxima de 10 em permanência, têm que fazer formação. Qualquer voluntário novo que entre tem que passar pelo processo de formação, as crianças podem vir, mas são acompanhadas ou por um voluntário acreditado ou só podem trabalhar com os animais do eco canil”.

Cabras
Um dos chamarizes deste centro de bem-estar são umas cabras que deambulam pelo espaço adjacente. “Estamos numa área com quatro hectares, onde havia depósito de lixeiras e que esta iniciativa veio resolver. Nós, além deste centro de bem-estar, temos um projeto para dinamizar estes quatro hectares. Uma das partes que temos é com outras espécies, e neste momento, as cabras ajudam-nos a fazer a manutenção deste parque depois de termos feito a limpeza”.

O vereador reconhece que são “um chamariz para as pessoas virem usufruir do espaço e pô-los em contato com os cães para adotar”.

Fito-Etar
Uma estufa e uma Fito-Etar dão, ainda, um lado mais ambiental, ecológico e sustentável ao projeto.
O eco canil tem um conceito de sustentabilidade ao nível da madeira com a predominância do OSB, madeira reciclada, temos o caso das casotas construídas com um material que resulta da reciclagem de tabliers e estofos de automóveis”, revela Vitor Patrício.

O saneamento não usa químicos nem é o saneamento tradicional. “Nós temos uma fito etar onde todo o material das limpezas dos dejetos dos animais passa por uma primeira triagem numa fossa, entra num primeiro lago que é a fito etar onde temos uma espécie que faz o tratamento de metais pesados; depois essa água é encaminhada para um segundo lago que tem outro conjunto de espécies de plantas que obviamente faz outro tipo de tratamento. Em termos de qualidade, a água sai para se poder fazer a limpeza do canil e para a regra de jardins e relva. E daí o conceito ecológico. A estufa aparece porque é lá que fazemos o plantio de espécies que depois vamos usar reflorestação durante o inverno no nosso território”.

Voluntários
Nathalie Azevedo – Prozelo
“Antes de ser voluntária, já tinha contato com os cães errantes através da Associação ‘Patudos de Amares’, da qual sou a atual presidente e uma das fundadoras. Na altura, falamos com a câmara para a necessidade de se construir um canil no concelho. No entanto, enquanto isso não acontecia fomos fazendo atividades para ajudar outras situações, nomeadamente, a recolha de rações.

Eu já tinha feito voluntariado na Abra, em Braga, e isso foi motivação para fazer na terra onde vivo. Queremos ajudar em atividades na recolha de rações e na adoção de animais. Nós aqui fazemos várias coisas como alimentar os animais, limpar, passeá-los no vasto terreno aqui á volta. Vimos para cá aos sábados e domingos de manhã, mas durante a semana podemos fazer pequenas atividades.

Reconheço que é um bocadinho difícil, ás vezes, separamo-nos dos cães porque vamos ganhando afeto. Todos os animais são diferentes e aprende-se muito com cada um deles apesar de só virmos ao fim-de-semana”.

Margarida Soares – Figueiredo
“Foi uma prima que me falou do voluntariado do IPDJ, onde estava incluído o eco canil e eu achei que seria uma boa ideia. Adotei a Tusse aqui no canil. Eu tinha um gato, ganhei alergia e adotei uma cadela que estava numa ninhada. Não era muito grande mais chamou-me logo a atenção.

O curioso é que a primeira coisa que ela fez foi urinar numa das sapatilhas do meu pai e percebemos logo que era aquela que iríamos adotar.

Às vezes, venho à semana ajudar o senhor Manuel porque gosto muito dos animais e de estar com eles.

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