Vila Verde

O ‘amor’ esteve confinado, mas já está a bordar corações

Dois confinamentos, o primeiro mais difícil do que o segundo e o lay-off a ser usado para manter os postos de trabalho. Na Aliança Artesanal, em Vila Verde, o ambiente está mais desanuviado e as bordadeiras começam a ganhar o ritmo com o crescendo de encomendas.

“As pessoas tiveram tempo de ir aos baús e descobriram muita coisa que agora estão a mandar bordar”, diz Cristina Lopes, a bordadeira que se assume como porta voz das outras quatro. Há 33 anos na Aliança, Cristina é, juntamente com Aurora Maia, a mais antiga da casa. Tem uma visão do passado, do presente e, sobretudo, do futuro do artesanato e, particularmente, dos bordados dos lenços dos namorados.

Primeiro, o passado recente. “O primeiro confinamento entre março e junho do ano passado foi o pior. Não estávamos habituadas e custou a adaptação”. Já o segundo, entre meados de janeiro até finais de maio “foi mais fácil. Se no primeiro as encomendas foram suspensas, no segundo ainda conseguimos terminar algumas coisas”.

A Cooperativa que rege a Aliança Artesanal optou pelo ‘lay-off’ para não ‘perder’ as bordadeiras e estas continuarem a ter um meio de subsistência ainda que “um pouco mais reduzido”. Cristina Lopes reconhece que “o lay-off permitiu fazer trabalhos em casa que estavam há anos parados, alguns com 30 anos, ao mesmo tempo que aumentamos o convívio e a relação com a família mais próxima. O senão é que os ordenados são cortados”

O regresso
Se no primeiro regresso, após confinamento, “estava tudo mais parado”, agora, desde junho, “tudo foi mais rápido e as coisas estão a voltar à normalidade”. Aliás, o aumento de pedidos de bordados tem vindo a aumentar, sinal que os tempos estão a estabilizar. “Houve muitas pessoas que descobriram peças dentro de baús e quiseram dar-lhe um uso e modernizá-las. Por isso, optaram por bordar com os motivos dos Lenços dos Namorados”.

As bordadeiras são unânimes: “a parte psicológica ficou mais afetada. Estivemos muito mais tempo em casa, a viver mais os problemas, a pensar em como seria o amanhã”. Até por isso, o regresso está a ser positivo. “Pelo menos, falamos e rimos umas com as outras”.

Para além de Cristina Lopes e Aurora Maia, a Aliança tem ainda Lurdes Borges (há 13 anos na casa), Alcina Fernandes (há 28 anos na Aliança) e Alice Augusto (29 anos ligada à Cooperativa) como bordadeiras.

O futuro
O artesanato precisa ser olhado “com outros olhos pelo poder político”. A frase poderia ser da presidente da Aliança Artesanal, mas é, também, das bordadeiras: “é preciso dar apoios para que os salários possam ser apelativos para os mais jovens. Daqui a meia dúzia de anos, todo este esforço para reabilitar esta arte vai acabar se ninguém fizer nada”, desabafa Cristina Lopes.

Júlia Fernandes, a presidente da Aliança, afina pelo mesmo diapasão e assume que a renovação das bordadeiras “é o seu maior problema. Conseguimos, agora, apoio para desenvolver, em Vila Verde, o projeto ‘Cultura Para Todos’, onde temos uma vertente associada à Aliança, para cativar e sensibilizar os mais jovens para a necessidade de dar continuidade a esta tradição”.

Uma boa visão, condição física em forma são condições para o desempenho desta atividade e que com a idade vão ficando mais débeis. Júlia Fernandes, também, é da opinião que o poder central deveria olhar para o artesanato de outra forma: “tem um IVA muito elevado, por exemplo, as margens são pequenas e as muitas horas a bordar não se traduzem no vencimento final”.

Colocar as bordadeiras em lay-off “foi difícil” e na retoma “notou-se a perda de rendimentos das pessoas porque isso se refletiu nas compras já que o artesanato não é um bem de primeira necessidade”. É verdade que “as vendas on-line foram impulsionadas e a produção de máscaras permitiram manter as coisas à tona”.

O projeto ‘+Coeso’, cuja entidade gestora é a ATAHCA, permitiu dar o vencimento a um recurso humano durante os próximos três anos, “o que é mais uma ajuda para que estas mulheres possam ter alguma estabilidade familiar”.

Segundo Júlia Fernandes, “estaremos atentos a todos e quaisquer apoios que surjam e que possam ser adaptados para a Aliança Artesanal e se for caso disso, iremos apresentar candidaturas”. Também, no caso da igualdade de género, uma das matrizes fundadoras da Aliança, irá continuar a ser feito um trabalho de proximidade com as mulheres.

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