“Ainda estou magoado com a freguesia de Rendufe”

É uma autêntica história de vida, vivida por várias partes do país, da Europa e do Mundo. José Pedrosa, pai do atual proprietário da Quinta de Rendufe, abre o livro das memórias para contar ao ‘Terras do Homem’ como chegou até Rendufe para produzir vinho: “tinha duas propostas, o Solar das Bouças e Quinta da Cerca”. Como a ideia era ‘fazer’ uma quinta à sua maneira, o extenso mato e as pedras do espaço em Rendufe bastaram para o convencer.

Uma entrevista onde aproveita para esclarecer alguns mal-entendidos com a freguesia e manifestar a mágoa que ainda sente com a freguesia, por causa de um famoso episódio com o Cónego Melo.

Como chegou até ao Mosteiro de Rendufe?
Eu tinha as caves na Póvoa de Varzim há muitos anos, tinha uns armazéns de vinho no Porto e, também, estava ligado à construção. Interessei-me por comprar uma quinta para produzir vinho verde, o vinho que eu gostaria de produzir. Ponho um anúncio num jornal a dizer que se compra ou se permuta com um apartamento na Póvoa, uma quinta que tenha licença para plantio de vinha. Apareceram-me dois senhores: um para ver se que queria o Solar das Bouças e um outro de Amarante, que estava ligado à Mota Engil, a dizer que vendia a quinta em Rendufe, mas só até aos arcos onde está o chafariz que fornecia a água para o mosteiro. Fui ver o Solar das Bouças e o homem que foi comigo, olhou para mim e achou que eu não gostei. Era bonita, mas por estar feita eu não gosto dela porque queria fazer a minha quinta.

Restava-lhe a segunda oportunidade…
Sim, fui ver a outra em Rendufe e entrei três metros dentro do portão, eram só silvas, os muros caídos, estava muito mal. E eu disse: ‘é esta quinta que eu quero, vou transformar isto’ e assim foi. Depois apareceu a outra parte onde os caçadores iam para lá caçar, era quase um baldio e até nem gostaram muito que eu tivesse comprado aquela parte porque estavam habituados a ir para lá treinar os cães. Disseram-me que se ia vender, era de um senhor que construiu muito na Póvoa e era de Famalicão. Entretanto, soube que uma senhora de Lago estava interessada em comprar e tinha oferecido por ela 50 contos. O meu feitor era também o feitor dela e pensei numa estratégia. Fui ter com ele, e perguntei o que ele achava daquele monte, que era só pedra, e por 30 contos eu ficava com ele. Entretanto, foi ter com um senhor e disse-lhe que queria comprar, naquele dia, o terreno em Rendufe: ‘hoje compro, amanhã já tenho outro em vista’, disse-lhe. E ofereci 55 contos, ‘faço já um contrato promessa, passo o cheque e depois fazemos a escritura’, ele aceitou. Eu também sabia que o feitor ia dizer à tal senhora o meu preço e ela iria firmar-se no preço que deu. No dia seguinte, estava a deitar abaixo um muro divisório e a juntar aquilo, como era antigamente.

Começou logo com a vinha?
Com meia dúzia de raparigas que nunca tinham trabalhado com a agricultura, eu plantei a vinha.

Estamos a falar em que ano?
A quinta da cerca foi por volta de 1987 e depois a outra metade, a parte virada para São Vicente de Bico foi poucos anos depois. Aquilo tinha muita pedra, era tudo aos socalcos e tinha uma vinha sem jeito nenhum, velha, cheia de doenças e plantei tudo de novo.

O seu objetivo sempre foi ter vinha?
Sempre, nunca quis outra coisa. Hoje, se aparecesse lá terreno era para vinha. Ainda estive interessado na de Lago, do Dr. Pereira da Silva, mas eu queria fazer partilhas. As caves e a quinta ficaram para um filho, e o resto que tinha de casas e terrenos ficaram para uma filha e outro filho. Comprar a quinta de Lago seria demais para um só e desisti, mas aquilo caiu nos olhos. Se fosse mais novo ninguém a comprava senão eu.

Depois de ter comprado a quinta toda, quanto tempo demorou a fazer a plantação?
Comecei logo. Com máquinas de arrasto, compressores a partir pedra, andei quase dois anos. Eu queria por a minha quinta funcional, andar 500 metros sem ser necessário fazer manobras com o trator.

Foi difícil esse processo?
Não é coisa fácil. Depois é preciso tirar tudo o que é madeira, matos, etc., para colocar a vinha. Antigamente, os lavradores não sabiam o veneno que punham: punham mato verde numas valas e depois a vinha. O bicho comia o mato, metia-se na madeira e comia a vinha, era um erro. Eu conhecia o país inteiro a comprar vinhos, mas também a Espanha, Itália, Grécia. Via muita vinha plantada. Eu tive como engenheiro agrícola, um engenheiro da estação agrária de Braga, o engenheiro Trigueiros e um dia mostrou-me uma vinha e eu pensei ‘ele está tolo não quero nada disto’. Viemos, não lhe disse nada e depois telefonei-lhe a perguntar se vinha a Amares e se podíamos almoçar juntos. Almoçamos em Lago e eu ia com um desenho feito, pintado e com a videira. Disse-lhe que gostava de fazer uma vinha à minha maneira, mostrei-lhe o desenho e ele disse que se podia fazer. É como está hoje e a partir dali muitos me copiaram. O que existia era uma vinha em cruzeta e depois ramadas, ora uma vinha quanto mais perto estiver do terreno melhor porque o sol bate no terreno, aquece, volta para cima e dá melhor vinho. A vinha quer sol e alguma humidade e não como antigamente se fazia onde as vinhas eram por cima de linhas de água, o vinho verde não se podia beber com 15 gramas de acidez fixa. Para mim, cada videira tem que comer no seu prato, quando uma fica doente não tem que afetar a outra.

Depois de ter criado esse sistema ‘inovador’, quanto tempo demorou até produzir o primeiro vinho?
A vinha quando vai para velha, o vinho é muito melhor. Ao fim de três anos, agora, a vinha já começa a produzir uvas, mas nos primeiros três anos não há nada. Depois entre os quatro/cinco anos até aos 12/13 anos, o vinho é melhor, mais aromático, mais forte.

Portanto, já substituiu a vinha
A primeira que eu plantei já foi toda substituída. Entretanto, vai ser preciso substituir a atual, mas ela vai se substituindo a ela própria. Há uma doença, que se chama eflorescência dourada, que é um mosquito, pica a videira e ela morre. Nos pequenos quintais, à volta, há muita vinha abandonada que provoca a doença. Eu já me queixei e o meu filho vai se queixar outra vez e vai responsabilizar os serviços. Temos que dar provas que tratamos a vinha, mas as casas que vendem os tratamentos passam faturas com esse tratamento que não são mais do que adubos ou outros químicos quaisquer e não há forma de controlar isso.

O senhor Pedrosa chegou a comprar o Mosteiro?
Eu comprei o Mosteiro propriamente dito, inclusive com os claustros, mas eu disse que não os queria. Eles propuseram-nos um acordo, senão avançavam para a expropriação, e vendemos o Mosteiro mais o pomar. Convém esclarecer que vendemos primeiro o pomar e só depois o Mosteiro. A direção regional comprometeu-se a fazer uma vedação entre a quinta e o pomar que ainda não está feita, aquilo que fizeram não é nada e eles vão-na fazer porque vão ser obrigados. A vedação tem que ser feita com o nosso acordo e eles puseram uma rede que está melhor para guardar galinhas e fica feio. Tinha sido combinado que seria em vidro para as pessoas puderem ter uma visão da quinta. Eles disseram que era provisório e vai ficando definitivo, mas não vai.

Nunca pensou em fazer nada no Mosteiro?
Eu tive um projeto para o Mosteiro que cheguei a mostrar ao diretor nacional de turismo, mas ele perguntou-me se tinha muito dinheiro para deitar fora porque dizia que não era rentável e que iriam exigir muita coisa, tinha que ir pela traça antiga. Na altura, falou em dois milhões de euros, que era muito dinheiro naquele tempo, e então desisti. Está agora o meu filho a fazer no varandão da eira, um espaço para provas de vinhos e eventos pequenos.

Chegou a ter problemas com a freguesia a propósito de uma visita do Cónego Melo
Foi num almoço com o arcebispo de Braga. Eu era amigo do Cónego Melo e ele um dia perguntou-me se eu não oferecia um almoço para a Academia de Teologia portuguesa e para a da Galiza. Vinha o Fraga Iribarne e eu aceitei. Pediu-me para trazer uns ‘bichinhos’, lagostas, lá da Póvoa, uns camarões e por mim, tudo bem. Em Rendufe, acharam que o Cónego Melo vinha-me vender a igreja, o que era uma estupidez nem cabia na cabeça de ninguém. Inventaram aquilo e houve senhoras que se sentiram mal porque foram agredidas. Eu sempre disse que por muito que a igreja tivesse lá umas pessoas que nem comem nem bebem e ganham muito dinheiro, eu não quero a igreja para nada.

Mas como surgiu essa ideia?
Surgiu porque o povo pensou que eu ia comprar a residência paroquial, os claustros e depois o povo achava que não podia ir para a igreja. Quando o estado vendeu a quinta, reservou só aquilo que era da igreja, o resto o estado confiscou à ordem de São Bento. Cede a residência para o pároco dormir que era na antiga hospedaria, cede uma parcela de terreno para cultivo, o passal, porque era para seu uso. Ora o que surgiu foi que eu queria comprar tudo e fazer lá uma unidade hoteleira.

E queria fazer?
Eu cheguei a ter um projeto para o Mosteiro, e apenas para o Mosteiro, de uma unidade hoteleira. Agora o estado já vende imóveis, mas antigamente era muito difícil. Uma das coisas que me ficou atravessada porque fui atrasado, foi a chamada casa da audiência que chegou a ser tribunal e prisão. Tinha gente nas Finanças, mas quando fui, fui tarde e o estado cedeu aos escuteiros.

Ficou magoado com o povo por causa desse episódio?
Com o povo fiquei. Eu colaborava com os de São Vicente em tudo o que me pediam e com Rendufe não porque fiquei magoado. Acho que não tinham razão nenhuma para fazer aquilo. Estavam habituados a entrar por ali dentro e fazer daquilo deles, mas depois de comprar, eu era dono e queria a minha privacidade. O padre Ximenes queria uma chave da quinta para entrar quando quisesse e eu perguntei se ele também me dava a chave da casa dele. Quando as pessoas queriam visitar a igreja, eu pedia ao padre, portanto, ele podia fazer o mesmo quando quisesse visitar a quinta. Fizemos uma reunião onde esteve o presidente da câmara da altura e o governador civil, chovia muito e o padre Ximenes fechou a porta da igreja e deixou-nos na rua. Eu fiquei muito incomodado com aquilo.

Hoje como está essa relação?
Eu sou uma pessoa cordata, quero viver em paz, não tenho medo que me venham roubar.

Não houve, também, um problema com os caleiros da água?
A água que ia para o chafariz do terreiro nunca a tentei tirar porque é pública, isto é, tornou-se pública mesmo nascendo no meu terreno. Já a do outro chafariz, quando comprei a quinta já não ia para lá. Hoje, continua a não ir porque aproveito para fazer a regra apesar de ter muita água, tenho três poços, uns ligados aos outros. Um lugar que eu nunca explorei foi debaixo do lagar, onde diziam que existiu uma casa das armas que serviu para os frades resistirem às invasões francesas.
Voltando ao chafariz, recordo que ele é nosso porque está a fazer de parede, já a água é pública, são coisas diferentes. E eu não posso desfazer aquilo. Quero esclarecer que nunca tive intenção de retirar a água do chafariz do adro.

Mas não houve uma altura em que faltou lá a água?
Sim, falhou e sabe porquê? Eu como andei com terraplanagens, a água vem de um caminho, tem um óculo que é muito baixo, com as obras aquilo parou e as pessoas podem ter pensado que eu queria tirar a água. As caleiras de pedra mantêm-se e, inclusive, vamos fazer uns óculos para se ver a água a correr. Eu limpei a mina toda e por isso, a água está limpa.

Nunca se arrependeu de ter comprado a quinta?
Não. Apesar de algumas quezílias, que fazem parte da vida, nunca me arrependi de ter comprado a quinta.

Voltando um pouco atrás, a atuação da população foi por falta de informação ou houve alguém por detrás?
Houve alguém que fomentou o boato e o povo, por vezes, é muito bairrista, gosta de defender aquilo que é dele e eu até compreendo. Agora, acho que o padre Ximenes teve culpa naquilo, ele foi convidado para o tal almoço dos teólogos e não compareceu. Com o presidente da junta da altura, o senhor Domingos Veloso, sempre tive muito boas relações com ele, foi uma pessoa extraordinária e não sabia da minha intenção de construir o tal hotel de charme. O anterior a ele, o Zeca, teve alguma interferência naquilo. A forma como foi contada a história de maneira agressiva, que eu me queria apoderar daquilo tudo, não foi correta nem verdadeira.
Há também um sacana de um vizinho, que já puxou de espingarda e tudo, por causa da passagem para um terreno que é meu, tenho a escritura e tudo. O caminho, anteriormente, era encostado à quinta e não por onde passa agora. É um terreno comprado pelo pai do anterior presidente da junta para o tal senhor que depois me vendeu a quinta.

No fundo, o que queria fazer é aquilo que se vai fazer agora com o Revive
Exato, eu inclusive ofereci o projeto aos Monumentos Nacionais feito por um arquiteto, que já faleceu, que tinha muita obra do género e sabia muito daquilo, o arquiteto Carvalho Dias.

Hoje, é quase incontornável, a quinta e a vinha aparecerem nas fotografias juntamente com o Mosteiro. Sente que tomou sempre as melhores opções?
Eu acho que sim. Já agora deixe-me dizer que os rendufenses têm na igreja o Cristo mais valioso do país.

Nesta altura, quantos litros de vinho produz a quinta?
Cerca de um milhão de litros. E já disse ao meu filho que deveria criar uma marca de vinhos com o nome de ‘Rendufe’ ou associada aos monges e ao mosteiro.

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