A aldeia de Vilarinho da Furna, em Campo do Gerês, Terras de Bouro, começou, ao longo dos últimos dias, a surgir à tona, sendo já visíveis as partes mais altas das construções, há meio século submersas pelo rio Homem, para dar lugar à Barragem Hidroelétrica da EDP.
Mas neste final de janeiro de 2022, já se vê mais daquela histórica aldeia comunitária do que em agosto de 2021, quando muitos se contentaram com a visualização de alguns telhados. Desde março de 2009 que não se conseguiam ver tantos aspetos de Vilarinho da Furna, ocasião em que se viram cerca de três quartos da localidade, conforme recordou, ao Terras do Homem, António Barroso, o guardião daquele espaço único nas profundezas do Gerês.
“Eu penso que a manter-se este clima e se continuar a não chover, vamos conseguir ver a breve trecho para aí um quarto da aldeia, pelo menos, as partes mais altas, porque sendo a bacia muito grande, como o vale é também profundo, nunca se iria ver tudo, mas quem estiver atento, poderá ficar com uma ideia do que era a aldeia”, explicou António Barroso.
Para o guardião da aldeia, dirigente de AFURNA (Associação dos Antigos Habitantes de Vilarinho da Furna), esta situação de seca generalizada no país poderá ser aproveitada por parte da EDP para a limpeza do lodo que se vai acumulando no fundo do paredão a jusante e que caso não se fizesse a sua manutenção periódica, poderia comprometer a eficiência de determinadas descargas, inclusivamente numa eventual abertura das comportas por motivos de emergência.

No entanto, há muitas regras de segurança a acautelar, uma das quais é a água não ter mais de 35 metros de altura, para não perigar os mergulhadores.
Vilarinho da Furna, encravada naquele vale, foi imortalizada graças ao trabalho pioneiro de investigação participante realizado pelo antropólogo Jorge Dias, que com a sua mulher, a musicóloga Margot Dias, deu a conhecer ao mundo a forma peculiar de um povo serrano de antes quebrar que torcer, a viver em regime de comunitarismo, em pleno Estado Novo.
Já há muitos curiosos em Vilarinho da Furna
O Terras do Homem esteve naquela zona, calcorreando o caminho, que desde a ponte da barragem conduz ao lugar de Vilarinho, onde além de um grupo de turistas que descia da Alto da Louriça, não resistindo às primeiras imagens deste ressurgir da aldeia, constatou ainda vários grupos, com muitas pessoas curiosas passeando entre a antiga zona agrícola e a área de passagem para os pontos altos de pastoreio, fotografando o cenário granítico, principalmente a calçada de acesso à antiga capela.
Capela que em 1971 foi trasladada, para o Campo do Gerês, antes da submersão da aldeia, prevendo-se que caso não chova muito, nas próximas semanas, no mês de fevereiro sejam visíveis as zonas mais a norte da aldeia fantasma, isto é, aquelas que ficavam acima de Vilarinho da Furna, pois o núcleo habitacional estava no fundo do vale situado entre as Serras do Gerês e Amarela.
Uma das primeiras imagens que delicia os amantes da natureza é de um tronco, resistente desde há 50 anos (“as árvores morrem de pé”), de uma cerejeira, situada perto do antigo alambique, árvores a partir das quais se faziam bebidas, diz o guardião, António Barroso.
Nestas últimas semanas, são cada vez mais os grupos de pessoas, especialmente aos fins de semana, que aproveitando a ausência de chuva e para evitarem grandes concentrações, devido à pandemia mundial da Covid-19, se aventuram em passeios pela margem direita do rio Homem, no caminho aberto pelos antigos habitantes da aldeia, para transportar os seus haveres, face ao iminente início de funcionamento da barragem, de modo a poderem presenciar 50 anos depois o pouco que resta da aldeia comunitária de Vilarinho da Furna.
