Júlia Correia nasceu na Lage há 95 anos. Na adolescência vai para Lisboa, onde casa, vai para Angola com o marido, trabalhador na Sorefame, regressa a Lisboa um mês antes do 25 de Abril e em meados dos anos 90 regressa à Lage. Peripécias são muitas, algumas delas glamorosas outras mais medonhas. Pelo meio, há um salvamento de uma mulher vítima de violência doméstica.
O pai de Júlia foi o último responsável pelas Minas dos Carris Minas dos carris: “eu estava lá quando veio o maior nevão do Gerês, eram metros de neve e tivemos que ser evacuados. Nessa altura, já teria uns dez anos e lembro-me que nos foram lá buscar com pessoas que conheciam os caminhos, acompanharam-nos até ao Gerês, a pé. O meu pai esteve pouco tempo nas minas porque depois fomos para Lisboa e ele trabalhou na Sorefame, tal como o meu marido”.
A ida para Lisboa, juntamente com os pais e a irmã, dá-se depois da venda de uma casa que tinham na Lage. Os pais compram um terreno em Carenque, Sintra, e lá que se instalam. “Foi o meu marido me conheceu a mim, eu gostava muito de andar de bicicleta, ele passava mim quando ia para a casa de família e não dizia nada, uma, duas vezes. Depois foi na igreja de Santa Maria que nos conhecemos. Namoramos quatro anos à porta, ele de fora e eu de dentro. Casei com 25 anos, ele tinha um ano e meio de diferença de mim”.
Uma curiosidade: o padre Adelino que esteve até há pouco tempo em São Bento, era um jovem padre na Amadora onde o casal tinha casa “e convivíamos muito”.
Angola
O primeiro emprego do marido foi nos barcos a vapor da CUF e depois passou para a Sorefame onde esteve 45 anos, tendo sido convidado para ir trabalhar para África, isto nos anos 50. “Nós tínhamos casado há pouco tempo, ele foi para Moçambique com outro pessoal e eu fiquei em Lisboa. Era para ficar três meses lá, mas esteve três anos e era uma ‘maravilha’, não havia telefone, era uma carta de três em três meses”.
Uma das marcas de Júlia Correia é o seu sentido humor e algum sarcasmo: “já cá, em Portugal ele andava sempre com uma equipa de pessoal e ia por um ou dois meses. Quando regressou de Moçambique eu disse-lhe ‘não penses que vou estar aqui sozinha estes anos todos’”.
Um tempo depois voltaram a convidá-lo para ir para África, mas desta vez para Angola, “ele nunca dizia que não a ninguém”, e muita coisa que existe lá em Angola, em termos de construção ele participou.
“Uma das condições que ele pôs como condição, foi eu ir também. No entanto, estávamos a criar uma sobrinha, a Rosa Maria, que tinha quatro anos e eu não quis que ela ficasse cá. Eles deixaram, mas todas as despesas com ela eram à nossa custa, médico, medicamentos, viagens”.
Diferenças
“Senti muitas diferenças entre Portugal e Angola, na comida, da falta da família, de muitas coisas. Mas depois foi-me adaptando e passei a gostar mais de viver lá. Estive lá 17 anos e vínhamos a Portugal de três em três anos onde passávamos três meses de férias”, recorda Júlia.
Quando vivia no Lobito, um avião caiu a poucos metros de casa. “Era um avião dos correios que passava todos os dias e, nós de um momento para o outro deixamos de o ouvir. O meu marido era para vir nesse avião e as pessoas começaram todas a bater-me à porta a dizer que o avião tinha caído no mar. Houve mortes. O acidente deu-se me frente à minha casa, era um dia de nevoeiro. Os pacotes das cartas começaram a dar à costa”.
A verdade é que “ninguém sabia que vinha lá o meu marido, nem eu sabia, apenas sabia que ele estava para vir, mas não sabia se no avião da manhã ou da tarde. Acabou por não vir nesse dia”.
Caçadas
“O meu marido chegou a fazer caçadas com outros moradores, durante a noite. Ia havendo alimentos, mas eu não gostava nada da porcaria daquela carne. Eles levavam tudo para lá porque na minha casa havia uma varanda e deixavam os bichos mortos espalhados. A verdade é que apareciam logo uns empregados para levarem a carne e a preparem porque eu, nem pensar. Os pretos iam com alguidares buscar aquilo que os outros não queriam. Eu nunca provei dessa carne, com exceção de gazela, talvez”.
A vida de Júlia em Angola era passada na lida da casa, a fazer costura com a ajuda da Domingas. “Enquanto estive lá não senti qualquer sinal de violência, estava tudo sossegado”.
Diamantes
Através da Sorefame, o marido chegou a trabalhar nos diamantes, na Diamangue, “onde eu também cheguei a trabalhar, mas só depois de nos arranjarem uma moradia. Aquilo era muito rigoroso, nós éramos revistados, as casas eram revistadas sem nós sabermos. Chegamos a ir a um sítio onde ninguém ia, ao local onde estavam as escombreiras da pedra, porque o meu marido colecionava pedras, aquelas era muito bonitas e chegou a trazer algumas”.
Pouco depois percebeu-se que, naquele lugar já ‘abandonado’, poderiam existir mais diamantes e a exploração voltou ao ativo.
Miss Moçâmedes
A sobrinha de Júlia, que estava com eles em África, recorde-se, envereda pelo mundo da moda e ganho o concurso de Miss Moçâmedes: “viajava com ela para os desfiles. Na altura pensava que era bom, mas depois arrependi-me porque cada vez que a rapariga ia para qualquer lado tinha que ir uma acompanhante que era eu. Conheci vários locais à custa disso. Eu tenho tudo guardado porque ela não liga nenhuma”, volta a dizer com algum humor.

Mulher salva do marido
Uma das histórias que Júlia Correia tem na memória, passa-se num passeio de domingo. Numa picada “vejo um homem à pancada a uma mulher e eu peço ao meu marido para parar o carro. Ele parou, faz marcha atrás e ela quando me vê, pede-me para a salvar porque ele a queria matar. Saí do jipe, mas o meu marido agarrou-me porque não queria que me metesse nisso. Eu fui na mesma, aproximei-me e perguntei-lhe o que estava a fazer, se estava a matar a mulher e o homem dizia-me que tinha razão para isso e se não a matasse agora, matava depois. Eu impus-me disse para a deixar e ir cada um para o seu lado, acho que salvei a mulher naquele dia”.
Outra história recordada mete um cacho de bananas ao barulho. “Nós tínhamos que andar sempre com remendos para por nos pneus e uma altura, numa picada, o meu marido cruzou-se com um homem que lhe perguntou se lhe vendia um. Ele disse que não tinha, mas que podia arranjar o pneu… estava ele e outro pessoal que lá arranjaram o pneu ao homem.
Ficou tão contente, que lhe arranjou um cacho de bananas que não cabia no carro. A Rosa Maria ia no carro teve que seguir noutra viatura porque o cacho de bananas era tão grande que não cabia e depois andamos a dar bananas à vizinhança”.
Regresso
O regresso a Portugal dá-se já o pai estava “reformado da Sorefame onde trabalhava num forno a carvão, chegavam a vir pessoas de França e de outros lados para aprender com ele”.
“A chegada a Lisboa dá-se em março de 1974, apesar de inicialmente estar prevista para abril, lá já se falava que estava alguma coisa para acontecer.
O casal fica a viver na Amadora onde havia comprado, uns anos antes, um apartamento, T1 por 120 escudos. Por não ter muitas condições, decidiram vender o apartamento e comprar outro, mas “ainda assim não me sentia bem, decidimos arranjar uma casa, mas eu não queria ir para Carenque”. A solução foi encontrada na Serra da Silveira, em Sintra, em duas vivendas geminadas, “onde nem água havia e eu não quis ir para lá”.
Uma habitação seria encontrada ainda em fase de construção, com Júlia Correia a acompanhar o que restava da fase final, com a escolha de materiais e de acabamentos. Avançaram para o contrato de compra e venda mesmo não tendo o dinheiro todo porque “ainda não nos tinham pago um apartamento que vendemos. Três meses depois o processo estava finalizado”.
Depois de voltarem para Lisboa, o marido passou a trabalhar na construção de todas as barragens que existem no Norte. “Dependendo da duração da construção das barragens, por vezes, era necessário alugar uma casa nesses locais e eu ia com ele”.
Mais memórias: o frio do Douro mesmo tendo lareira e “lembro-me do meu marido estar a viver no aldeamento da Caniçada quando esvaziaram a barragem toda”.
Lage de novo
O regresso à Lage dá-se em 1995: “o meu pai não se calava com a Lage, quis ir para Lisboa e depois não se calava com a Lage e nós, a brincar, dizíamos que para a Lage não ele não ia mas, afinal, acabou por vir. Eu sempre gostei de cá estar porque foi onde eu brinquei mais na escola, tinha cá os meus amigos e amigas”.
Também a vinda para a Lage tem uma peripécia. “O meu pai comprou uma D. Elvira, um carro que avariava por todos os cantos, por isso, eu sei bem para que serviam as mesas de merendeiro à beira da estrada. Da primeira vez que viemos, o lanche acabou e nós, com fome, fomos às uvas”.
Na altura, “não havia caminhos, não havia estradas, era muita miséria para quem vinha da capital”. Júlia lembra-se, também, de um acidente pirotécnico, na altura da Páscoa, em que morreram cerca de 10 pessoas, algumas delas vindas de fora. “Foi uma enorme confusão, um estrondo como nunca ouvi e várias pessoas que morreram”.
