Natural de Amares, Miguel Rocha fez todo o seu percurso académico nas escolas do concelho, onde a área de Ciências sempre lhe despertou a curiosidade. É aqui que o desporto, nomeadamente o voleibol, entrou na sua vida. Hoje continua a conciliar o trabalho no Centro de Nanotecnologia e Materiais Técnicos, Funcionais e Inteligentes (CENTI) em Famalicão com a prática federada de voleibol.
Todo o seu percurso académico antes da Universidade foi em Amares?
Sim, todo o percurso académico em Amares, no Secundário em Ciências e Tecnologia fui para a Universidade para a área de engenharia de Materiais.
Era a área que queria?
Eu desde sempre gostei da área de Ciências, foi algo que sempre me interessou muito. Descobrir novas coisas, perceber o conceito e como funcionam as coisas sempre foi o meu principal objetivo e daí gostar muito de Ciências.
Mas teve alguma experiência, no Secundário, em mexer com coisas? Como surgiu esse interesse pelas Ciências?
Em primeiro lugar nunca fui muito adepto de línguas nem História. Ciências da Natureza, Geologia, Biologia, tudo o que estava relacionado com a ciência mais humana ou ciência mais química, mais física despertou-me o interesse porque me obrigavam a pensar e a querer chegar mais longe do que propriamente a decorar.
Como surgiu a Engenharia de Materiais?
Eu, no início, quando estava a pensar ir para a Universidade não fazia, de todo, ideia para o que queria ir porque sempre gostei muito da área de ciência e não sabia para que curso queria ir. O meu principal objetivo era ir para um curso o mais abrangente possível que não me restringisse muito as portas. Numa altura, tive uma visita à Universidade do Minho e falaram dos vários cursos que existiam. Quando falaram de Engenharia de Materiais, eu percebi que no curso se fazia de tudo um pouco: havia a parte mecânica, a parte física, a parte química, um pouco de programação porque era transversal a todas as engenharias. Portanto, o que tinha definido é que queria ir para a área de Ciências na parte de Engenharia.
Depois de terminar o curso, ficou com a sensação que era aquilo que queria?
Quando fui para o curso gostei muito do início ao fim. Sinto que me deu muitas ferramentas sobre conceitos gerais sobre os diferentes materiais, sobre os processos de fabrico de diferentes peças e diferentes requisitos que são necessários para diferentes aplicações. No entanto, só mais nos 4º/5º anos é que houve uma componente experimental. Todos os semestres tínhamos sempre uma cadeira ligada ao laboratório onde colocávamos a mão na massa, mas mesmo aí o trabalho era muito pouco e muitas vezes eram desenvolvidos pelos próprios professores. Nós eramos mais assistentes do que fazedores. Ao nível da compreensão geral daquilo que é a base seja da parte mecânica, seja da parte física, seja ao nível microestrutural, nano estruturas este curso tem um bom nível. Resumindo: o curso permite-nos compreender das coisas mais pequeninas às coisas maiores, dando-nos a capacidade para entender e ir um pouco mais além.

Quando acabou o curso, onde se via a trabalhar?
No curso, acabamos por ter o estudo de três principais áreas: materiais metálicos, materiais poliméricos e materiais cerâmicos. No decorrer do curso, aqueles que mais me suscitaram interesse foram os materiais poliméricos. No entanto, como queria fazer muito a tese em ambiente empresarial, eu, autonomamente, concorri a uma vaga na Continental, que tem sempre um ou dois projetos para a área de materiais. Como eu sabia de antemão, entrei em contacto com a empresa, mesmo não sabendo se iria haver ou não vaga, e eles disseram-me que ia lançar dois temas, não me disseram quais, marcaram uma entrevista onde me foram explicados os dois temas, sendo que um deles era mais dedicado à otimização da integração de cordas para pneus e o outro era para sensores de temperatura de base têxtil, tecidos ou malhas que permitissem medir a temperatura e transmitissem essa informação sem ligações com fios, isto é, permitisse ligar ao telemóvel por Bluetooth e saber a temperatura dentro de pneu, de uma mangueira ou de uma correia de transmissão. Foi por esta área que enveredei e fiz a minha tese.
Tirou 19 valores na tese. Em que consistiu?
Atualmente é muito difícil medir essa temperatura Primeiro porque se colocarmos sensores comerciais dentro dessas estruturas compósitas de borracha, a aderência não é muito boa e comprometemos a parte mecânica da estrutura. Depois, todas as soluções que existem para saber a temperatura, se não forem integradas dessa forma só permitem entender a temperatura a nível de superfície, nós nunca sabemos o estado interior dessa estrutura. Ora, a ideia era desenvolver um sensor que pudesse integrar a estrutura, não comprometesse a parte mecânica, que seria sempre um compósito de borracha. Convém explicar que um compósito é definido como um conjunto de diferentes materiais, tipo misturar materiais metálicos com materiais cerâmicos, no meu caso era de borracha porque misturava têxtil numa estrutura borrachosa.

É partir daí que ‘salta’ para o Centro de Nanotecnologia e Materiais Técnicos, Funcionais e Inteligentes (CENTI) em Famalicão?
O tema que eu escolhi na Continental era desenvolvido em parceria com o CENTI e foi aí que acabei por conhecer o Centro. A tese acabou por desenvolver-se nos dois sítios. Sempre que era produção das estruturas têxteis em si, caraterização da gramagem das malhas, sempre que queríamos fazer a integração do têxtil na borracha e todos os testes mecânicos à borracha era tudo feito na Continental. O CENTI entra aqui mais na vertente tecnológica: nós desenvolvemos a estrutura têxtil com fios condutores e depois no Centi são preparadas todas as conexões, é feito o dimensionamento dos sensores, é caraterizado a nível funcional como é que a resposta do sensor elétrico se comporta perante a temperatura. No âmbito do projeto, foram, ainda, desenvolvidas umas antenas de base têxtil para integrar tudo e que nos iria permitir, sem a necessidade de ter fios, comunicar com o dispositivo, neste caso com o telemóvel. Portanto, CENTI deu-lhe a caraterística inovadora digamos assim.
Portanto, acaba a tese e fica no CENTI.
Assim que estava para entregar a tese, o CENTI fez-me uma proposta e acabei por ficar lá.
O que faz lá, atualmente?
Eu trabalho lá há cerca de dois anos na área de materiais inteligentes sendo que a minha equipa é mais focada na parte de estruturas e desenvolvimento de estruturas funcionais têxteis e o meu papel é ligado ao desenvolvimento de sistema de aquecimento de base têxtil, sensorização de base têxtil e atuação em diferentes estruturas.
Com um tempo de casa um bocadinho maior, já tenho entrado um pouco em áreas diferentes, mais relacionadas com o meu curso, já que entro mais na caracterização mecânica e funcional de materiais e no desenvolvimento de novas estruturas compósitas.
Esse é um trabalho feito a pedido de empresas?
Temos diferentes projetos desenvolvidos no CENTI: podemos ter projetos financiados pelo Estado onde concorremos a diversas áreas, como médica, têxtil, automóvel, energia e casos sejam aceites são reunidos consórcios com empresas para desenvolver um propósito comum, que normalmente é um produto ou um protótipo que demonstre uma funcionalidade associado a esse projeto. Depois temos projetos mais de cariz individual, são uma espécie de serviços com um período mais alargado e onde trabalhamos com uma só empresa que define requisitos que quer desenvolver, que tipo de tecnologias quer integrar ou pode, simplesmente, chegar ao CENTI dizer que têm uma solução que gostavam de a tornar inovadora e aí incluímos tecnologia nessa solução. Por outro lado, podem querer entrar numa área nova e recorrer ao CENTI para dar apoio nesse aspeto. O CENTi tem como função transferir o conhecimento adquirido para a empresa e adaptar as soluções aos processos que a empresa já integra.

Há soluções desenvolvidas pelo CENTI que já estão no mercado?
Normalmente, as soluções que desenvolvemos no âmbito dos diferentes projetos cabe sempre às empresas decidir se as coloca ou não no mercado. Muitas vezes e porque desenvolvemos soluções com poucas unidades, ficam bastante caras. As empresas optam por decidir não colocar no mercado porque tem custos bastante elevados, devidos aos nossos métodos e às poucas quantidades. Ainda assim, temos alguns projetos cujo produto final foi patenteado por empresas para as colocar no mercado e que já estão no mercado.
Mas a ambição é colocar produtos no mercado…
O CENTI tem uma visão um pouco diferente daquilo que é o seu ramo de atuação. Muitas das vezes, os centros tecnológicos restringem-se um pouco mais ao desenvolvimento fundamental, à investigação pura e dura, o CENTI tem sempre o objetivo de chegar a um produto final, em que consiga incluir uma funcionalidade e que possa ser testado em contexto real, que seja fidedigno e utilizável.
Não podemos deixar de falar do facto do seu percurso académico estar ligado à prática desportiva federada, neste caso o voleibol. De que forma é que isso foi importante neste seu percurso?
Bastante importante, uma vez que precisamos dedicar tempo, se enveredarmos pelo mundo do desporto, aos nossos estudos, ao nosso trabalho e claro ao desporto. Temos que ter uma boa capacidade de conciliar as duas coisas se quisermos ter resultados. Só por aí já é um desafio. Nesse aspeto, já nos obriga a ter que encontrar métodos de organização, tornamo-nos mais objetivos na forma como olhamos para os problemas e como os vamos resolver porque não vamos ter muito tempo para resolvermos esses problemas se o quisermos fazer bem. Na minha opinião, acabamos por otimizar muito a forma como desenvolvemos o nosso trabalho, a nossa metodologia e disciplina. Outra caraterística é a resiliência porque, ao nível do desporto, passamos por fases boas e fases más e estas oscilações que acontecem, com frequência, no desporto, permitem-nos olhar para o trabalho ou para o estudo de uma forma diferente.
Lida-se melhor com a frustração, por exemplo…
Exatamente, porque a frustração é uma das coisas que está muito presente no desporto: podemos jogar bem e ter um mau resultado ou ter um bom resultado e ter jogado mal, ou seja, a frustração é sempre algo difícil de ultrapassar. E o desporto ensina-nos a lidar com isso que depois podemos transferir para o mundo do trabalho. Resumindo: temos mais método, somos mais objetivos na forma como lidamos com os problemas e o desporto e em particular o voleibol, tem a característica de envolver muita gente, o que implica lidar com pessoas com diferentes personalidades. No mundo do trabalho isso vai sempre acontecer, porque só muito raramente é que trabalhamos sozinhos e saber comunicar é meio caminho andado para termos sucesso nas diferentes áreas.
