São microscópicas, mas têm um grande impacto nas indústrias alimentar e farmacêutica e estão agora no caminho para transformar a abordagem ao tratamento de efluentes no setor têxtil. Já há até uma instalação piloto no Norte do país, onde cientistas e empresas portugueses estão a comprovar como estes microrganismos podem tornar o processo menos dispendioso e mais sustentável face aos sistemas convencionais.
Este novo sistema de tratamento de efluentes combina métodos de oxidação avançada e cultivo de microalgas para remoção da matéria orgânica e cor do efluente têxtil bruto. Além de ser uma solução de tratamento com um custo mais baixo face aos procedimentos convencionais, a solução permitirá obter água com menor impacto ambiental e biomassa com potencial de valorização para produção de biocombustíveis como o biogás.
De acordo com os investigadores, são várias as vantagens associadas à utilização das microalgas. “Os gastos com eletricidade para o arejamento das culturas (neste caso, para fornecer dióxido de carbono para que as microalgas façam a fotossíntese) são inferiores aos de sistemas bacterianos com lamas ativadas – tratamentos convencionais – que necessitam de forte arejamento para fornecimento de oxigénio. Além disso, ao realizarem a fotossíntese, as microalgas contribuem para a captura de dióxido de carbono e a diminuição da sua concentração na atmosfera”, revela Filipa Pinheiro, aluna de doutoramento da Universidade do Algarve (UALG).
Mas os benefícios associados à utilização destes microrganismos vão muito além da questão ambiental: “A biomassa microalgal é rica em azoto e fósforo, permitindo a sua valorização noutras aplicações para além dos biocombustíveis, como a aplicação em solos como biofertilizantes. São, ainda, ricas em pigmentos e outros compostos bioativos que podem ser usados na indústria têxtil, nomeadamente na coloração e funcionalização de tecidos”, revela Luísa Barreira, Professora e Investigadora na UALG.
Estas aplicações e funcionalidades estão já a ser testadas na instalação piloto, situada em Vila Nova de Cerveira, nas instalações da Tintex, um dos parceiros do Vertical Têxteis. Os investigadores esperam comprovar que os benefícios associados ao uso das microalgas são superiores às limitações decorrentes da sua utilização.
“A principal desvantagem dos sistemas de microalgas está no espaço que ocupam. De forma a promover a fotossíntese, é necessário que os sistemas sejam pouco profundos, permitindo a penetração da luz. Isto faz com que ocupem muito espaço para albergar todo o volume de efluente produzido pela fábrica durante o tempo necessário para o tratamento. Este tempo, a que denominamos «tempo de residência hidráulico», está ainda a ser analisado”, acrescenta Luísa Barreira.
“No entanto, há a destacar a produção de uma biomassa muito valorizável e capaz de mitigar os custos do tratamento dos efluentes. Além disso, há um aumento da qualidade da água tratada, permitindo a sua reutilização com diminuição da pegada hídrica da indústria têxtil”, conclui Filipa Pinheiro.
Este método inovador, o tratamento de efluentes de origem têxtil com recurso a microalgas, é, de resto, um dos principais resultados do Vertical Têxteis do Pacto da Bioeconomia Azul. Recorde-se que, a par desta iniciativa, o consórcio desenvolveu fibras que incorporam 50% de matérias-primas vindas de redes de pesca, bem como corantes naturais obtidos a partir de microalgas. Foram ainda atribuídas novas funcionalidades a fibras utilizando também as algas.
