Voando sobre um ninho de livros

Agente em campo, de John Le Carré

John Le Carré tem quase 90 anos. Como é possível? De cada vez que publica um novo livro penso que é o último e a minha alma de leitora entristece. Mas não, Le Carré continua a escrever e, ano sim ano não, apanha-nos de surpresa com o seu conhecimento arguto e lúcido sobre o mundo contemporâneo disfarçado de ficção. E que ficção! Desta vez deparamo-nos com um quase reformado agente em campo, que pode ser o de badmington, que tão eximiamente joga, ou o do seu mister de espião, ao qual é devolvido no preciso momento em que esperava uma função final de gabinete, longe da acção.

Este agente, de nome Nat, debate-se com um passado dúplice, com uma mulher defensora dos direitos humanos que, todavia, sempre foi sua cúmplice e amiga, e com uma filha mais dura de roer, a cujas perguntas tem dificuldade em responder, tão cínicas são as respostas possíveis e que tanto a desiludem nas suas expectativas sobre um pai crente nos valores a que dedicou a vida:

– A Inglaterra, mãe da democracia?

– Qual quê, tenho dúvidas…

Quando lhe confessa o mister de espião:

– Há alguma fé em que defenda os bons contra os maus?

– Qual quê, há descrença e há dúvidas.

Pois Nat, em fase confessional, é desafiado por um jovem no seu jogo de eleição, em que nunca fora batido. Todas as semanas se encontram, a cada semana o jovem vai ganhando força e conquistando pontos, derrotando Nat pela primeira, e pela segunda, e por todas as vezes. Ed é um radical, desgostado com o Brexit, sentindo-se traído pelos políticos que governam o país, e Nat ouve-o sem o desmentir, mas mantendo as suas reservas. E o enredo adensa-se, na melhor tradição do jogo de espiões que Le Carré tão bem sabe urdir.

Na verdade, e em pano de fundo, nem a Rússia de Putin (outros “agentes em campo”, sem fé nem lei), nem os actuais dirigentes do Reino Unido são poupados: Boris Johnson é destratado como “um antigo secretário de estado dos negócios estrangeiros porco e ignorante”, e do establishment britânico e do Brexit não sobra pedra sobre pedra.

Não perca, leitor, este Agente em Campo (Dom Quixote, 2019), um Le Carré em grande forma!

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