Cartas a um amigo que lê jornais#4

Como estás meu amigo?

Espero que estejas bem de saúde, para leres mais algumas facetas da história que tenho para te contar.

Hoje vou falar-te da primeira responsabilidade que assumi aos sete anos de idade.

Era ainda muito cedo, daquele dia 7 de outubro do longínquo ano de 1944. Meu irmão, o Alcino da Cadeia, acordou-me dizendo: “Zeca… levanta-te! Já vão sendo horas para te vestires. Sabes aonde temos que ir?”

Dizendo isto, meu irmão desapareceu pelo alçapão que dava para a loja.

Saltei da cama, corri para o lavatório e lavei-me. Sempre correndo, era eu agora que me infiltrava por aquele buraco que existia no nosso quarto, a que todos nós da família dos ‘Cadeias’ chamávamos de alçapão, cujas escadas desci duas a duas.

Atingi rapidamente o estabelecimento, que todos designavam de ‘loja’. A corrida continuou, dirigindo-me para a cozinha aonde o Carneiro, um preso de Aboim da Nóbrega, me esperava de chocolateira em punho.

Tomei o café, como ainda por estes nossos lados se usa dizer e chamar ao pequeno almoço.

Sem deixar de correr, entrei de novo pela parte de dentro do estabelecimento de meus pais e gritei: “Alcino… Alcino”. Como resposta ouvi uma sonora gargalhada e, de seguida, uma interrogação firme de meu irmão: “Que te aconteceu rapaz para andares por aí a correr de um lado para o outro feito tolinho?”

Fiquei estático, parado, atarantado e gritei: “Ó seu grosso, seu maldito marracha, não tens que me levar à escola?”. Nova gargalhada solta aos ventos, acompanhada de seguida por uma exclamação do Alcino que disse: “Ainda é muito cedo rapaz… já olhaste para a estrada?… ainda é de noite”.

Efetivamente, estava a romper a aurora. Meu irmão, como era seu hábito, acabara de me pregar mais uma partida das dele. Deviam de ser umas 8h30 quando saímos de casa, no Bom Retiro, porta a fora, para calcorrearmos o alcatrão até à estrada de paralelos da Vila, que nos levava à Escola Conde Ferreira, situada no lado esquerdo do Tribunal (que hoje já não existe).

O Senhor Professor Eliseu Cardoso Fragoso Pereira já estava sentado na sua mesa de trabalho, dentro de uma das salas de aulas. Meu irmão apresentou-me ao mestre, sem recomendações especiais.

Neste dia, os novos alunos iam chegando e eram encaminhados para uma das filas das bem alinhadas carteiras. Neste dia, relacionei-me com muitos desses novos alunos.

Um dos alunos da 3ª classe, vendo-me, veio ter comigo para me dizer: “Zequinha… não tenha medo, verá que tudo isto é uma brincadeira… se algum ‘marmelo’ se meter consigo é só dizer-me que eu trato-lhe da saúde”. Este bom rapaz prontificou-se a defender-me caso necessitasse. Era o Chico Egas, filho do matador de porcos em nossa casa todas as sextas feiras. O nome verdadeiro daquele bom rapaz era Francisco Egas Soares, com quem, a partir daquele dia, passei a manter uma amizade inquebrantável, que dura já há 78 anos. O que ainda se há-de ver, lá para mais tarde, nas cartas que te escreverei.

 

Serra Nevada [Escritor]

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