Cartas a um amigo que lê jornais#10

Amigo, lembras-te daquele homem muito alto e entroncado que sempre que eu, com os meus seis anos, ia à Quinta da Cadeia, levado por um dos meus irmãos ou então por minha tia Diozinda, a qual cedia aos meus rogos para me levar aquela casa onde nasci por engano? Sabias que desde que eu chegava até que fosse a hora de voltar para o Bom Retiro, ele, o homem alto como um pinheiro e entroncado como um carvalho, percorria a sua vigia por toda a quinta comigo às cavalitas?

Já te não lembras daquele homem extraordinário? Pois bem, se dele já te não lembras eu vou tentar avivar-te a memória descrevendo-o.

Chamava-se Emídio. Eu via-o na forma de um gigante, igual aos gigantes das histórias que ele me contava. Os meus olhos de diminuta criança assim permitiam ver o Emídio.

Meus pais tinham comprado o moinho velho do Brandão, na encosta do monte de Santa Engrácia, e iniciavam os trabalhos para que uma moderna casa de primeiro andar fosse levantada sobre as ruínas do velho moinho.

Foi por esta altura que apareceu a oferecer o seu trabalho ao Manel Zé, empreiteiro da obra em curso, aquele homem desconhecido na região e de rosto tostado pelo sol, de compleição física invulgar derivado à sua altura descomunal e corpo e ombros largos, proporcionais com a altura. A estrutura física do Emídio parecia-me realmente a de um autêntico gigante.

Dores da Cadeia estava presente quando aquele estranho homem apareceu a oferecer o seu trabalho. Ouvindo a sua voz, sensação estranha percorreu-lhe o corpo e estremeceu. Aquela voz era-lhe familiar, já a ouvira mas não sabia onde.

Seu rosto, de um moreno acentuado parecendo ter sido tostado pelo sol e de semblante carregado, fazia-a lembrar alguém mas não sabia quem. Todo aquele mistério reportava Dona Adelaide das Dores para muitos anos recuados, o que a levou a interceder pelo indivíduo junto do empreiteiro da sua obra com resultado positivo: O Emídio fui admitido para serviços secundários, o que mesmo assim agradeceu.

A experiência que Dona Dores estava a viver sobressaltava-a, não conseguia apagar da memória o rosto daquele homem e estremecia ao ouvir a sua voz. Comunicou ao seu marido a apreensão de que estava a ser vítima, o que o levou a tratar de colher junto do Emídio informações acerca da sua vida.

O homem não escondeu nada ao João da Cadeia, que pôs a esposa ao corrente do que apurara, inclusivamente que o homem acabara de cumprir 20 anos de degredo em África. Ouvindo esta revelação, fez-se luz na memória de Dona Adelaide das Dores Almeida, reportando-se à sua meninice concluiu: aquela voz e aquele rosto moreno só podia ser de seu primo Emídio…

Efetivamente assim era. O João da Cadeia passou a confiar naquele robusto e entroncado homem. Sendo o feitor da Casa e Quinta da Cadeia, morreu na Casa do Pessegueiro*, casa e quintal que passaram a integrar a Quinta da Cadeia em S. Pedro de Esqueiros, em cujo cemitério jazem, junto das escadas que dá acesso ao campanário, os ossos daquele amigo que lembrarei para todo o sempre.

* A casa do Pessegueiro situa-se na entrada carral da Quinta da Cadeia, junto à calçada medieval, a qual está coberta por alcatrão.

 

Serra Nevada [Escritor]

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