Vemos, ouvimos e lemos e não queremos acreditar. A memória colectiva é volátil como espuma; a cegueira, o ressentimento e o egoísmo humanos são como palas que levam as pessoas comuns a incensar seres maléficos, autocratas – gente que opera graças à fragilidade da democracia a que deve o direito de falar, de ser ouvido.
Pode ser com incredulidade que lemos e ouvimos as insanidades de alguns, felizmente uma minoria, candidatos às eleições legislativas (ou às próximas Presidenciais em França, para citar um exemplo lá fora), mas a verdade é que há quem os ouça e partilhe do seu ódio, contra toda a racionalidade, contra si próprios.
Há quem queira que todos sejam iguais na cor e no pensamento, quem defenda a subalternização das mulheres, quem se apoie nos piores fundamentalismos, quem defenda que há seres humanos indesejáveis, que os mais pobres devem ser abandonados à sua sorte, porque é deles a culpa da pobreza.
Não é pois de admirar que a distopia publicada em 1985 por Margaret Atwood, A história de uma serva (Bertrand, 2013) pareça hoje afinal mais uma possibilidade do que uma fantasia política sobre um futuro distante. No livro conta-se a história de Gillead, um estado autocrático, patriarcal e fundamentalista criado nos EUA após uma revolta de extremistas religiosos que queimam a Constituição como primeiro acto de vitória. Neste novo país, as poucas mulheres férteis ocupam o estatuto social de Servas e são obrigadas, como condição de sobrevivência, a ter relações sexuais com os maridos das esposas das elites, sujeitas a rituais ignóbeis que terminam com o roubo dos filhos concebidos para outros. Mas há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não, e há servas que, sujeitando-se, não se submetem, e há embriões de revolta que vão silenciosamente ganhando espaço. Se o fim de História de uma Serva nos deixa inquietos e amargurados, a sua sequela, Os Testamentos (Bertrand, 2020), que Atwood só publicou 35 anos depois, devolve-nos o entusiasmo e a esperança. Pode parecer que vem aí o fim do mundo, mas o grande espírito humano, o amor e a solidariedade sempre se refazem e acabarão por vencer.
Escusado será, porém, tanto andar para trás. Por isso, quando for votar, leitor, escolha sempre um partido que respeite os direitos humanos; encontra-os à direita, ao centro ou à esquerda: são os partidos que, tendo embora orientações ideológicas diferentes têm em comum a crença e a defesa da democracia.
(Nota: as duas citações em itálico são de Sophia de Mello Breyner)
Manuela Barreto Nunes [Bibliotecária]
