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“Cada dia é uma conquista”. Vimaranense viaja a pé por toda a Europa

Henrique Pereira completa 32 anos no final deste mês e foi há quase um ano que iniciou uma viagem por todos os países do continente europeu a pé. Saiu de Guimarães, de onde é natural, e só planeia regressar ao final de “quatro a cinco anos”.

Já dormiu junto a javalis, planeia encontrar ursos e enfrentar temperaturas negativas. Henrique Pereira completa 32 anos no final deste mês e há quase um que iniciou uma viagem por todos os países do continente europeu a pé. Saiu de Guimarães, de onde é natural, e só planeia regressar ao final de “quatro a cinco anos”. “Não é fácil fazer uma viagem destas. Pode acontecer de tudo”, afirmou ao Notícias ao Minuto.

Mas a aventura começou bem antes do início da caminhada, já que dois anos antes de partir Henrique começou a “estudar os países por onde ia passar, a estudar as coisas todas que devia aprender do que poderia acontecer na viagem”, de forma a “estar ciente” de tudo o que poderia vir a enfrentar. Depois despediu-se “da empresa onde estava” quando achou que estava na “altura de começar esta aventura”. “Em julho tinha já tudo planeado e marquei a partida para o dia 5 de outubro do ano passado”, contou ao Notícias ao Minuto.

Questionado sobre os motivos que o levaram a tomar a decisão, Henrique garantiu que sempre teve “curiosidade de conhecer outros países, outras culturas” e que nunca gostou de “estar preso no mesmo sítio”. “Já que em Portugal, neste momento, se está cada vez pior porque uma pessoa parece que está a trabalhar para nada, cheguei a um momento em que me cansei”, assegurou.

Após nove meses de viagem já pisou sete países: Portugal, Espanha, França, Mónaco, Itália, Vaticano e San Marino. Daqui a algumas semanas espera entrar na Eslovénia. No total, Henrique planeia viajar a pé por todos os países do continente europeu durante “quatro a cinco anos”.

Sobre a decisão de parar a sua vida durante quatro ou cinco anos para viver esta aventura, Henrique reconhece ver a situação de outra forma. “Muita gente pensa que é parar, para mim é ao contrário: não é parar, é continuar. Acho que quem está parado são as pessoas que estão no mesmo país, andam sempre na rotina do trabalho/casa”, referiu.

“Já houve gente que me disse que aquilo que estou a fazer é uma loucura, há quem me chame maluco. Mas também já tive quem me dissesse o contrário. Por exemplo, o padre da minha freguesia disse-me ‘fazes bem em ir ver o que já se criou'”, afirmou Henrique.

Até agora, durante o caminho “ainda não aconteceu assim nada fora do plano”. No entanto, assume que há dificuldades e várias adversidades. Pelo caminho, Henrique vai partilhando “um bocado da rotina” nas redes sociais (Facebook, Instagram, Youtube e Tiktok) onde é conhecido por Riicky Odissey.

“Tentaram-me assaltar e atropelar”
“Em Espanha, mal entrei em Badajoz, tentaram-me assaltar, mas não tiveram sucesso. Em França, tentaram-me atropelar mas deram só no carrinho. Foi um atropelamento propositado, não sei se foi por levar a bandeira portuguesa, ou não. Decidiu atropelar-me e fugiu”, relatou Henrique ao Notícias ao Minuto.

Apesar dos percalços, o aventureiro continuou a viagem e reconhece que “um dos pontos mais pesados” é ter de “andar com um carrinho, que já pesa 40 quilos, a empurrá-lo e em subidas”. Ainda assim, Henrique mantém “sempre na mente o objetivo de continuar”.

O homem contou também ao Notícias ao Minuto que chegou a perder-se devido ao GPS. “Entrei num sítio que depois para sair foi muito complicado. Acabei por ligar ao 118, para saber se havia alguma alternativa porque eu não estava a encontrar e que não aparecia no GPS. Aí sim, veio a polícia e um senhor que conhecia aquele terreno melhor. Andámos para aí quatro quilómetros para sair daquele sítio. Foi um dia muito cansativo, honestamente”, confessou.

Mas há ainda outras dificuldades que estão por vir. “Vou passar por países com neve e com temperaturas muito baixas”, afirmou Henrique, que assegurou que há a possibilidade de “encontrar ursos”.

“Nesta viagem, cada dia, é um logro, é uma conquista”
“Desde que saí de Portugal, honestamente, já conheci pessoas que valeram muito a pena”, lembrou Henrique. Ainda assim, confessou que aquilo que o faz pensar que “isto é espetacular” são as “paisagens” por onde tem passado.

Outra das coisas que mais o entusiasma “é ao final do dia dizer que já estão mais 20 quilómetros, por hoje o dia está feito”. “Cada dia, basicamente, nesta viagem é um logro, é uma conquista. E é assim que vamos indo, é assim que eu vou pensando: pouco a pouco e o dia a dia. Não penso muito no futuro, porque não vale a pena. Já me aconteceram coisas que me fizeram ter que parar alguns dias e não adianta muito estar a prever coisas, porque quando uma pessoa pensa em coisas negativas é quando as atrai”, referiu.

Afastamento da família? “Daqui para a frente vai ser complicado”
Questionado pelo Notícias ao Minuto sobre o afastamento de casa e da família, Henrique respondeu que já recebeu as visitas dos pais e de um amigo, mas “daqui para a frente vai ser complicado”.

“Os meus pais vieram de visita porque estavam perto, moram na Suíça”, contou. Ainda assim, Henrique assumiu que as visitas a partir de agora já não vão acontecer “porque ninguém quer ir visitar países como o Kosovo, Bósnia, ninguém quer ir para esses lados. Agora vou passar os países mais hostis, digamos sem visitas”.

Campismo selvagem
Henrique contou ao Notícias ao Minuto que a sua passagem pelos diferentes países é feita “à base de campismo selvagem”. “Ninguém tem dinheiro para andar nem sequer um ano em hotéis quanto mais para outra coisa qualquer. Neste mundo tudo se paga”, realçou o homem.

Ainda assim, nas grandes cidades Henrique costuma usar a aplicação CouchSurfing, que lhe permite ficar alojado em sítios sem “pagar nada”. As pessoas dão-lhe alojamento “só para conhecer a pessoa e saber a história e por aí fora”.

Quanto às refeições, embora já tenha comprado um fogão, o homem costuma comprar refeições ligeiras em supermercados “porque é o mais barato”. Outra das opções são noodles: “É mais simples, é mais instantâneo, é mais rápido e fico satisfeito, por isso é melhor do que nada”.

Sem apoios, sobra-lhe a ajuda dos pais
Henrique confessou que todas as poupanças que tinha para a viagem “já foram à vida, devido a percalços”. “O meu pai e a minha mãe, ultimamente, têm-me ajudado um pouco”, disse o homem, assumindo que a ajuda financeira dos pais lhe permite “comprar o básico para comer”.

Embora já tenha entrado em contacto com várias entidades, incluindo a Câmara de Guimarães, Henrique reconheceu que neste momento não tem qualquer apoio.

“Há dias que custam, mas é um aprendizado para a vida”
Henrique assumiu que durante a viagem “há dias que custam”, mas a “vontade de aprender, conhecer e passar por sítios diferentes é uma inspiração, um motivo de força para continuar”.

Para o homem “viajar é a melhor coisa do mundo” e esta experiência é também uma oportunidade para “aprender”. “Uma pessoa nesta viagem também aprende muito sobre si mesmo, aprende a valorizar o tempo sozinho. Conhece-se e conhece outras pessoas e outras culturas. É um aprendizado para a vida”, referiu.

Futuro? “Tenho muitas adversidades pela frente e não sei se vou chegar vivo a Portugal”
O homem assumiu que uma das perguntas que mais lhe fazem é o que pensa fazer no final da viagem. O Notícias ao Minuto também lhe colocou a questão e Henrique garantiu que não pensa nisso. “Eu não sei se vou chegar vivo a Portugal, porque vou passar muita dificuldade. Não dá para prever, nem penso no que vou fazer quando chegar a Portugal, porque ainda tenho muitas adversidades pela frente”, afirmou.

Ainda assim, há sonhos que gostava de cumprir. “Uma das coisas que gostava de fazer depois era dar a volta a Portugal a pé, passar por todas as cidades portuguesas”. No entanto, Henrique não faz planos. “Já fui atropelado em França, vou encontrar ursos, também são muito perigosos, vou passar por temperaturas negativas. Esta aventura não é só o que as pessoas pensam, que acham que é só andar a passear. Não é só isso”, referiu ainda.

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