A CONSULAI, consultora especializada em agribusiness, apresenta o estudo “Evolução do Trabalho na Agricultura em Portugal”, uma análise aprofundada sobre as dinâmicas estruturais do trabalho no setor agrícola e os principais desafios que moldarão o seu futuro no nosso país.
Num contexto de transformação acelerada do agronegócio, o estudo, que assinala os 25 anos da fundação da consultora e o seu empenho em reforçar a compreensão sobre o impacto económico e territorial do setor agrícola (que em 2023 demonstrou uma elevada capacidade de otimização, gerando um VAB de 3.362 milhões de euros com uma base laboral de 211,5 mil trabalhadores e por comparação com o total nacional de 4,7 milhões de pessoas ao serviço e um VAB global de 147 mil milhões de euros), bem como o seu contributo para a segurança alimentar, a gestão sustentável dos recursos naturais e a mitigação das alterações climáticas, evidencia uma mudança estrutural significativa: a agricultura portuguesa está hoje mais produtiva, mais profissionalizada e mais orientada para a criação de valor, apesar de operar com menos recursos humanos. Uma dinâmica sustentada pela modernização tecnológica e pela mecanização, que permitem elevar a produtividade sem a necessidade de aumentar proporcionalmente a mão-de-obra.
Qualificação e valorização do trabalho os desafios críticos à inovação e produtividade
“Nos últimos anos, a agricultura portuguesa protagonizou uma transformação estrutural notável, tornando-se mais produtiva, mais profissional e cada vez mais tecnológica. Paradoxalmente, esta evolução não foi acompanhada por um reforço do prestígio social do setor. Pelo contrário, vieram ao de cima fragilidades já existentes que hoje assumem um carácter crítico e condicionam a sua sustentabilidade e competitividade, desde a escassez de mão de obra à dificuldade em atrair talento qualificado e jovem”, afirma Pedro Santos, Diretor-Geral da CONSULAI, alertando: “o futuro da agricultura em Portugal dependerá da nossa capacidade de qualificar pessoas, integrar tecnologia e valorizar o trabalho agrícola. Sem uma resposta clara, assente na renovação geracional, em políticas públicas eficazes e realistas, em mais capacitação e organização da produção e do setor, corremos o risco de perdermos o dinamismo conquistado, precisamente num momento em que mais precisamos de o consolidar e projetar no longo prazo.”
Mais valor com menos trabalho
O estudo revela igualmente que nas últimas três décadas, o volume de trabalhadores na agricultura registou uma redução expressiva tendo passado dos mais de 430 mil para cerca de 220 mil trabalhadores a tempo integral. Em contrapartida, o valor gerado pelo setor aumentou, permitindo que a produtividade mais do que duplicasse – um reflexo da mecanização, da modernização das explorações e da reorganização empresarial que se tem vindo a registar no setor.
Transformação do emprego e dependência de mão de obra externa
O emprego agrícola não desapareceu, mas transformou-se profundamente nos últimos anos. O número de pessoas empregadas estabilizou entre 165 mil e 180 mil, com uma redução acentuada do trabalho familiar e um crescimento do trabalho assalariado, que representava já cerca de 40% do total em 2023, segundo os dados mais recentes do INE.
Por outro lado, o peso crescente da mão-de-obra estrangeira no setor em Portugal, que ultrapassa os 40%. Este é um valor que quadruplicou desde 2014 e que não tem paralelo nos outros setores da economia portuguesa. Esta força de trabalho é particularmente crítica atualmente para as culturas intensivas e sazonais, assegurando os picos de produção e a continuidade operacional, e tornando-se num fator estrutural, indispensável à competitividade e progresso da agricultura portuguesa.
Qualificação, salários e competitividade
O estudo revela também que 81,5% dos trabalhadores portugueses no setor agrícola só possuem o grau do ensino básico e que os estrangeiros apresentam, em média, níveis de qualificação superiores aos portugueses: 7,5% possuem cursos superior, face a 2,7% dos trabalhadores nacionais.
Em termos salariais, a remuneração média agrícola cresceu cerca de 50% na última década, aproximando-se dos 1.000 euros mensais. Ainda assim, este valor permanece significativamente abaixo da média nacional (1.742 euros), o que limita a capacidade do setor para atrair talento jovem e mais qualificado, que será imprescindível no contexto de uma agricultura cada vez mais digitalizada e de precisão, onde os dados imperam e a tecnologia domina.
Assimetrias territoriais e modelos produtivos
O estudo conclui igualmente que a agricultura portuguesa apresenta fortes assimetrias regionais. O Alentejo concentra mais de metade da área agrícola (54,7%), mas apenas 11,3% da mão-de-obra, refletindo um modelo altamente mecanizado. Em contraste, regiões como Algarve e Oeste destacam-se pela elevada intensidade produtiva e maior necessidade de trabalho, com produtividades superiores a 5.200 euros por hectare.
Envelhecimento e desafios estruturais
O envelhecimento da força de trabalho é uma das tendências mais preocupantes: a idade média subiu de 46 anos em 1989 para 59 anos em 2023. Em paralelo, a mão-de-obra familiar caiu mais de 60%, evidenciando uma clara ausência de renovação geracional.
Apesar de uma redução de cerca de 20% nos acidentes de trabalho entre 2014 e 2023, a taxa de mortalidade mantém-se elevada, sublinhando a necessidade de reforçar as condições de segurança no setor.
O agricultor do futuro
A agricultura está a tornar-se cada vez mais tecnológica, integrando automação, sensores, inteligência artificial e serviços especializados. Este novo paradigma exige trabalhadores com competências técnicas e digitais, num contexto em que a tecnologia substitui tarefas manuais e potencia ganhos de eficiência.
Recomendações
O estudo, que identifica 7 principais tendências a acompanhar nos próximos anos (dependência estrutural de mão-de-obra estrangeira; a IA como núcleo da decisão agrícola; o setor mais orientado para eficiência e interdependências; a automação das tarefas repetitivas; o agricultor a tornar-se um operador tecnológico; a expansão dos serviços agrícolas tecnológicos; e o défice crescente de competências digitais), propõe ainda um importante conjunto de recomendações que refletem o que a CONSULAI considera serem a resposta para os desafios do setor agrícola numa atuação articulada entre empresas, políticas públicas e o ecossistema setorial.
Ao nível empresarial, é prioritário investir na qualificação da mão-de-obra, no planeamento estratégico e na adoção de soluções de automação e segurança, valorizando simultaneamente os trabalhadores. No plano público, torna-se fundamental assegurar políticas migratórias estáveis e previsíveis, reforçar a formação técnica e digital, promover a renovação segura do parque de máquinas e adaptar as políticas às especificidades regionais.
Em complemento, a coordenação entre associações, prestadores de serviços e instituições de ensino, através de iniciativas como plataformas de gestão de mão-de-obra, serviços tecnológicos estruturados, conteúdos formativos acessíveis e sistemas de certificação, será decisiva para aumentar a eficiência, organização e qualificação do setor.
Metodologia
A análise apresentada no estudo baseia-se numa abordagem integrada de fontes estatísticas oficiais, assegurando robustez, comparabilidade e abrangência dos resultados. Foram utilizados dados do INE, incluindo as Contas Integradas das Empresas e as Contas Nacionais, construídas a partir da articulação de registos administrativos, inquéritos estatísticos e informação contabilística. Esta base foi complementada com o Recenseamento Agrícola 2019, que permite uma caracterização detalhada da estrutura produtiva e do emprego no setor, bem como com os Quadros de Pessoal do GEP/MTSSS. Adicionalmente, foram considerados indicadores do Banco de Portugal e dados harmonizados do Eurostat, garantindo o enquadramento macroeconómico da análise e a comparabilidade internacional das principais métricas de produção, rendimento e emprego.
